quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A vontade do gambá


Ficamos muito tempo sem escrever, não por não ter acontecido nada, mas por estar acontecendo coisa demais. Estamos na reta final, acabando nossa estadia aqui em Morada Nova.  Com tanta coisa, pensei em escrever algo de despedida, quando um acontecimento hoje me obrigou a escrever mais.
Temos um paciente (Seu A.) no asilo (Vila Vicentina) que é hipertenso e tem sequelas de um derrame. Nesse derrame, perdeu o movimento do braço direito e ficou afásico, tem dificuldades em entender o que falamos e em responder. Repete as frases que fala e gesticula bastante, para melhorar a comunicação. Quando alguém pergunta sobre o derrame, ele nega com a cabeça e diz : ‘Não, não, não. Feitiço. Foi bodoco que o Tonho colocou.’ E repete as frases. Suponho que bodoco seja Vodu.
Seu A. tem a pressão descontrolada. Tenho tentado ajustar a medicação semanalmente desde outubro. Semana passada estava bom. Hoje fui conferir. Encontrei-o  nos fundos de sua casinha, no meio do mato. Chamei: ‘Passa pra cá, seu A.? Preciso falar com o senhor.’ Ele veio a contragosto e não quis conversa. Permitiu que eu medisse a pressão: vinte por dez. Dei um comprimido e avisei que ia medir de novo. Tentei conversar, ele se negou, disse que ninguém acreditava nele.
Fui perguntar às cuidadoras se ele estava tomando a medicação direito e descobri que ele tem se negado. Esperei o tempo para a medicação fazer efeito e voltei. Ele estava novamente no mato, o chamei. ‘Que o senhor tá fazendo?’ ‘Mijando.’Agitou os braços , nervoso: ‘Foi pro outro lado, pensei que fosse embora.’ ‘Não, seu A., preciso medir a pressão.’’Não, não, não vai medir não que mediu agora.’
Saiu do mato nervoso e por um instante tive medo de que ele me agredisse, repetia que eu não ia medir de novo. Fui insistindo, prometi medir e depois ir embora. Por fim, ele aceitou e se sentou. Começou a dizer frases emboladas, sobre gambá, que a pressão tava alta por isso, falava o nome de um político importante daqui, e gritou: ‘Alcoólico!’. ‘Quem, seu A.?’ Repetiu o nome do político e disse que a pressão dele estava alta por isso. ‘Por quê?’. Repetiu o nome do político e disse ‘Eu também sou’. Continuou emendando frases, falando do gambá, até que entendi  AA. ‘AA?’. ‘AA, eu sei tudo, cabeça boa.’ Foi entrando para casa e falando comigo. Era pra entrar também.
Foi embolando mais frases, dizia saber muito, falava que o gambá tem quatro patas e ele era como um gambá. Abriu um baú cheio de roupas emboladas e tirou uma mochila preta do fundo. Abriu a mochila e tirou uma bolsa menor, marrom. Dentro dessa bolsa, uma outra preta. Abriu o bolsinho de fora, tirou um chaveiro e me estendeu, em silêncio. Eram três placas de acrílico, uma rosa, uma laranja e uma azul. Em todas, a inscrição do AA, o nome completo de seu A. e o tempo sem beber. Três, seis e nove meses, em 1992. Fui perguntando sobre o alcoolismo. Dizia ser alcoólatra de nascença, que não pode nem sentir cheiro. Ia emendando e repetindo frases, enquanto eu tentava desvendar e estimulá-lo a continuar falando. Apontava o dedo: ‘Fulano bebe pra farra, fulano bebe pra briga, eu sou de nascença.’ Ficava nervoso ao lembrar do político, dizia ter bebido muito com ele, e se indignava: ele estava bem por ser rico e ter uma esposa que o colocava nas rédeas. Justificava a pressão alta pela vontade de beber a primeira cachaça depois de 20 anos, como um gambá.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vila Jovem: enfeitando a Vila

Parte de fora da casa do Vô Juquinha
Os meninos do Vila Jovem foram à Vila Vicentina enfeitar as casinhas. Se dividiram em duplas e cada dupla ficaria responsável por presentear um dos vovôs na festa de Natal e enfeitar a casinha.
Esses meninos são um sucesso! Organizaram-se, pediram aos pais enfeites que estivessem sobrando, planejaram como gostariam de enfeitar... Com tanto carinho, pensando em cada avô, em suas particularidades...
Vô Juquinha é quase cego, a casa foi enfeitada por dentro, com piscas-piscas. Pensamos que ele não conseguiria ver os enfeites então caprichamos nas luzes. Ao chegar em casa :' Uai, não tem isso todo ano não.Parecem estrelas! Fiquei muito satisfeito! Deus que abençõe as senhoras e tire do caminho todo mal que surgir. Que tudo de ruim que apareça volte aos que não tem boa vontade.'
Enquanto enfeitávamos a casa do Vô Juquinha, apareceu D. Ele tem 55 anos e está na Vila por ter sido abandonado pela família. Tem esquizofrenia e um temperamento mais isolado, bravo. Nos pediu :' Aqui, vocês podiam pedir a menina que tá enfeitando minha casa para fazer igual aqui.' ' Luzinhas dentro da casa?' 'É.' Tentamos estimular delicadamente :' Peça você.' 'Não, não vou pedir.'' Então espera que vamos lá e pedimos.'
A dupla que estava enfeitando a casinha onde D. vive com outro interno atendeu prontamente. Do seu modo, D. gostou bastante. Entrou calado e passou um tempo olhando os enfeites.
Fui ver o que estavam aprontando na casa da Vó Alzira. De longe ouvi Lulu Santos e risadas. Três meninos enfeitando a parte de dentro da casa e batendo papo com a avó, que sorria satisfeita com o carinho recebido.
Lindo ver diversos jovens dedicando horas de uma tarde de sábado a alegrar nossos idosos. No dia oito, teremos a festa de Natal e oitenta anos da Vó Alzira!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Enquanto você dormia

   Baile da terceira idade, fomos lá mais uma vez. Gosto do ambiente, de ver meus pacientes se divertindo, de vê-los dançar. E eles demonstram uma tamanha felicidade ao ver suas doutoras no baile. Dançamos, comemos. Voltamos pra casa alegres, rindo. De repente, uma mensagem e... a tragédia anunciada, "Vô Nestor faleceu."
   Talvez nem tanto tragédia. Na verdade um adormecer. Enquanto ele dormia a vida se esvaeceu. Vô Nestor, com seu sorriso único, agora vai sorrir de um lugar melhor. Sua tranquilidade vai resplandecer em um lugar que condiz com sua grande alma escondida dentro do seu sincero "Tudo bem, minha filha".
   "Vô Nestor é guerreiro", ouço. Foi mesmo e deixou seu exemplo de bravura. Em meio ao sofrimento, falta de saúde e solidão, venceu, lutou, mostrou mais força de superação do que qualquer um imaginava.
  "Morreu como um passarinho", diria minha vó. Foi mesmo, sua alma voou enquanto dormia e foi se juntar aos anjos do céu. Amém!

Lidiane esteve aqui!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônica de uma morte anunciada

Hoje me ligaram:'Vô N. Já morreu?'. Ainda não. A evolução da doença dele é tão complexa que não sei de que exatamente ele morrerá. Quanto a mim, angústia. Queria poder fazer algo mais. Hoje chorei ao lado dele. Tentei pesquisar resposta e nem à dor ele reagiu. Posso ter sido delicada, mas não consegui estimular meu vô. Depois de vinte dias internado,  retornou ao asilo inconsciente, ainda com infecção urinária e em oxigenioterapia. Discuti o caso com todos que me apareceram. A grande resposta é : ele não está morrendo de infecção urinária apenas ou de um possível câncer. Começou a morrer anos atrás, quando não controlava adequadamente sua pressão alta e diabetes. Morreu mais quando a família o internou no asilo. Morreu um pouco em dois derrames, morreu um pouco com tristeza e ociosidade que a vida em um asilo oferecem. E que posso eu com suas tantas mortes? Vô N. me mostra que começamos a morrer no dia em que nascemos. E eu morro um pouco com ele, nessa morte que se anuncia, escancarando tantos poderiam-ter-sido-diferentes em sua vida. Obrigada Ênio Pietra,  Ludmila Rezende e Valdirene Siqueira 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Anjos e demônios

Dona M, eu e João. Foto tirada com autorização da paciente para divulgação


Na segunda, fomos ver nossa paciente Dona M, que mora sozinha, já descrita aqui anteriormente, diz estar esperando a morte vir buscá-la, por isso não toma a medicação para ser mais rápido o processo de morte.
Fomos visitá-la e fazer fuxico, descobrimos q ela fazia muito tricô, tem uma máquina de tear em sua casa. Ótimo estímulo! Vamos tricotar. Levamos nosso mais novo amigo, participante ativo do projeto Vila Jovem, um jovem super cheio de energia, J , para nos ajudar.
Estávamos a fuxicar quando de repente entra uma moça na casa e se mostra muito conhecida de dona M. Descobrimos então que nossa idosa depressiva vende produtos naturais e estava cheia de encomendas. É, a cada visita nossa dona M se mostra mais disposta com a vida e nos surpreende também. Bom ver que um pouquinho de vida pode ser plantado de maneiras tão simples e tornar-se uma frondosa árvore de bem regada.
Mas o título refere-se basicamente ao atendimento no presídio. Marcella iniciou o atendimento com um rapaz de 19 anos. Ele já veio totalmente entorpecido, as fácies mostravam alguém que provavelmente fritou o cérebro com muita droga, queixando logo que precisa tomar medicação psiquiátrica para conseguir dormir. Tinha total consciência de usava os remédios com fonte de drogadição quando não tinha maconha ou outras drogas. Contava com uma cara perdida no mundo que o que mais gosta na vida é cheirar todo tipo de droga. Usava várias gírias, para contar que deixou de estudar, mas que era muito inteligente e que quando saísse da prisão iria voltar pra mesma vida que o colocou ali. Foi pego por azar.
Enfim, tristemente recusou as explicações para o mal que estava fazendo a si mesmo. Como não cederíamos a suas exigências pra medicação, disse que pediria a mãe para dar um jeito de conseguir pra ele. Recusou ajuda psiquiátrica. Última cartada, aceitou conversar com a psicóloga. Voltou pra cela revoltado por não termos prescrito a medicação. Sensação de juventude perdida, paciente que não quer ser ajudado. Nós duas pasmas e triste com a degradação humana. Meu Deus, tende piedade de nós!
Tentamos seguir com os atendimentos. Marcella então começa atender R. Conversa vai, conversa vem ele conta que armaram pra ele. Ele não cometeu o crime, apenas estava na hora errada e no lugar errado. Contou que tinha família e estava triste com desgosto que tinha proporcionado a sua mãe. Um rosto tristonho, humilde, queria mudar de vida quando saísse dali. Ao final da consulta vira e perguntar o que é preciso para doar os órgãos, queria fazer os exames para saber se tinha alguma doença infecciosa e se poderia doar ainda vivo. Surpresas, Marcella explicou que não precisa doar em vivo, que existe um processo. O rapaz foi embora pra cela. Fiquei comparando as duas situações. Não sei o quanto de verdade havia no segundo paciente. Mas acredito que bondade há em qualquer um, falta-nos a sensibilidade e muitas vezes a capacidade para achar o caminha até ela e a fazer despertar.
Que Deus nos dê força!
Lidiane esteve aqui!

sábado, 24 de novembro de 2012

Em se plantando...


Momento em que você descobre que o Clonazepam é o Rivotril...

   Grande conquista essa semana. Quando conversamos com o Thiago antes de vir, ele nos advertiu que o serviço na cadeia se resumia a renovar receita de Clonazepam para os reclusos, e que alguns deles cheiravam o Clonazepam, na falta de cigarro comum, maconha, cocaína e crack. Mas que saco -pensamos- serviço braçal?
   Todos os presos vinham com queixas aleatórias: dores, micoses, alergias e depois nos pediam o Clonazepam. Na terceira semana, um rapaz de 19 anos surgiu com uma queixa muito estranha. Desconfiamos que ele tinha inventado a queixa para aproveitar e pedir a medicação. Nesse mesmo dia, um dos agentes penitenciários veio nos contar: os presos escondiam os comprimidos na boca logo apos recebê-los e depois usavam como moeda de barganha. Trocavam por roupas, comida, e vendiam cada comprimido por 15 reais. Nos contaram que os presos chegavam a cheirar 15 comprimidos por vez, e ficavam entorpecidos. Um deles foi levado ao hospital desacordado.
   E agora,  que fazer? O Clonazepam é uma medicação que causa dependência, não podíamos simplesmente suspendê-lo, apenas não passar aos que chegassem ( e sim, chegam novos presos toda semana). Aos que queixavam insônia, oferecemos o Polaramine, que funcionou em dois casos. Ficamos encurraladas com a situação. Também teríamos dificuldades em dormir se estivéssemos presas, em celas apertadas e vendo nossos familiares meia hora por semana.
   Fomos à Farmácia de Minas e descobrimos que não tinha Clonazepam em gotas no estoque. Se tivesse, melhor, eles não podem cheirar nem esconder gotas.  Pedimos que fosse incluído no pedido que chegará em janeiro. Fomos à Prefeitura, não podiam comprar alguns para solucionar o problema, devido aos cortes de verbas de fim de mandato.
   Conversamos com todos os médicos da cidade sobre o problema. Alguns não sabiam. E todos concordaram que não deviamos alimentar esse tráfico. Resolvemos não prescrever nem renovar Clonazepam comprimidos. Os que desejassem, seriam encaminhados à Psiquiatra. E os que faziam uso crônico, deveriam esperar chegar a medicação em gotas ou pedir à familia que comprasse.. O delegado e os agentes penitenciários adoraram. A equipe inteira de saúde aderiu à nossa tentativa de resolução do problema.  Os presos...Melhor nem falar. Nos respeitam muito, nos chamam de senhora, mas não gostaram, obviamente. Num final de semana, cinco foram levados ao hospital e pediram a medicação. Dr. Bruno se negou: 'Clonazepam é com as estagiárias'. E nas três semanas seguintes, diversos presos vieram tentar.
   Tentamos tranquilizar, pedir que esperassem até janeiro. Na terça feira, visita do professor Rubió. Estavamos aguardando pelo Amador, secretário de Saude, que chegaria de viagem e viria conversar conosco. Ao chegar: 'Estava viajando, essas estagiárias de Medicina dão trabalho demais'. Estava chegando de Pequi, onde foi buscar quinze vidros de Clonazepam gotas que estavam sobrando por lá.
   Difícil descrever essa alegria que eu e Lid sentimos! Pelo respeito, consideração e confiança que a cidade teve conosco na nossa tentativa de resolver o problema. Sabemos que é algo pequeno, que não mudamos o status de drogaditos de alguns presos, a maior parte quer Clonazepam como alternativa às drogas que eles não estão tendo acesso. Mas é um alívio para nós saber que não vai haver mais tráfico às nossas custas.Lid está programando uma conversa com as famílias. Quanto a medidas de longo prazo, apoio psicológico... Vamos esperar!

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

E quando é que acaba o final?

Na nossa primeira visita à Vila Vicentina, nos pediram para avaliar o Vô N.. 86 anos, dois derrames, hipertenso, diabético e numa crise de gota. Chegaram ao consultorio com uma criatura tão linda... Emagrecido, sentado na cadeira de rodas, usando uma bermuda, camisa de botão e chapelão de palha. Como está o senhor? 'Bom, minha filha, graças a Deus.'E que sorriso me ofereceu! Sorriso de quem não esta bem, mas que abre mão da minha compaixão, parece resignado ao sofrimento.
Pés e tornozelos com escaras, dedões inchados pela gota, bom não estava. Vô N. nada disse além do que perguntamos. Consciência completa de si e do redor, mas como muitos outros, perdendo aos poucos a vontade de falar. Nos informaram que ele também perdia aos poucos a vontade de comer, se recusava e pronto. Tomamos as condutas necessárias e deixei um pedacinho do meu coração naquela consulta. Não é raro vovôs que simplesmente cansam, desistem. Ter conhecido Vô N. foi o maior impulso para iniciar o projeto Vila Jovem. Gostaria de vê-lo falando, comendo, rindo por alegria...
Mas não... Vô seguiu desnutrindo, desidratando...Simplesmente por não comer nem beber o suficiente. Até que pedimos que fosse levado ao hospital. Foi, recebeu alguns litros de soro e voltou à Vila. Três dias depois, desidratou novamente.
Eu e Lidiane não sabíamos e ainda não sabemos o que fazer. Nesse dia, discutimos com uma professora e ela recomendou que fosse passada uma sonda para alimentação. Voltou ao hospital para isso, mas como resolveu comer lá, a equipe não quis passar a sonda.
Mais uma semana. Chegamos à Vila e o Otávio avisou: 'Vai ver o Vô N; estou querendo levá-lo ao hospital.'  Encontro o Vô acamado. Bom dia Vô, tudo bem? ' Tudo bom, graças a Deus, minha filha. ' A frase é a mesma, dessa vez sem sorriso. Vô esta abatido e completamente inchado. Descubro que não urinou no ultimo dia. Faço um encaminhamento bem detalhado ao hospital. No dia seguinte, ele foi transferido para Curvelo, onde ficou mais alguns dias.
Em Curvelo tentaram passar uma sonda uretral e não conseguiram. Fizeram uma cistostomia, que é uma comunicação entre a bexiga e o meio externo. Nos mandaram um relatório orientando a encaminhar para o urologista, pensando em câncer de prostata. Vô N. agora mais emagrecido ainda, desnutrido mesmo, completamente dependente... Eu e Lid nos sentimos despedindo dele a cada dia. Discutimos se haveria necessidade de encaminhar ao Urologista: que diferença faria descobrir um câncer? Médico algum o submeteria a um tratamento nessas condições. Levei o caso ao Super Ênio, que também se sentiu desconfortável, mas nos orientou a encaminhar.
'A parte mais injusta da vida é a forma que ela acaba.'
Num domingo em que seria atendido, começou com uma dispnéia e voltou ao hospital. Fomos vê-lo na quinta. Mais um pedaço de mim ficou ali. Exames alterados há dois dias ( uma infecção urinária brava) e os médicos não iniciaram antibiótico devido à insuficiência renal. Entramos no quarto, chego pertinho dele : 'Vô, viemos te ver, como o senhor vai?'. 'Bom, filha, graças a Deus.' E para nossa surpresa, a enfermeira: 'Ele fala?'. Vô N. não estava falando, por preguiça ou por fraqueza mesmo. Conversamos com a médica de plantão, que resolve começar a dar o antibiótico. Mais tarde, voltamos para vê-lo e discutimos com outro médico o caso, a equipe resolve passar a sonda para alimentação.
Nesse emaranhado, nosso Vô se despede aos poucos desse mundo. Sempre resignado, sempre dando graças a Deus. De cada pessoa na vida, recebemos algo, um aprendizado, um sentimento. A passagem desse Vô nas nossas vidas tem sido muito forte. Torcemos todos os dias para que ele melhore e volte à Vila. E temos dele a proximidade do fim, a certeza vislumbrada da morte. Que nos assusta, nos esmaga e nos diminui ao que realmente somos: nada.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

No flagrante do momento

Estou tentando escrever sempre que aprendo uma nova expressão. Aprendi a usar o verbo catirar, e inclusive tentei catirar amoras em jabuticabas, mas não consegui guardar amoras.
Semana de folga! Desde que nos avisaram dessa semana,pensei que fosse dispensável, melhor três meses direto. Fui para BH pentear ovo, todos tinham seu afazeres e eu entristeci com a chuva e o movimento da cidade. Terça depois do almoço quis voltar para Morada. Ainda na terça recebi mensagem de um dos nossos meninos do Vila Jovem. Consegui voltar na quarta, com a companhia do meu fiel escudeiro Felipe César.
Chegamos a tempo do vôlei. Felipe machucou seus pés de moça e levei-o ao hospital para fazer curativo. Aproveitei para ver como estava um dos nossos vovôs do asilo. Esse vovô receberá qualquer dia um texto dedicado a ele, a cada dia sentimos que se despede um pouco de nós. Cheio de escaras, desnutrido, inchado, acamado. Apesar disso, responde aos nossos 'Tudo bem, vô?' sempre com 'Tudo bem, graças a Deus.'
Fomos à Vila Vicentina, que começa a exibir seus primeiros enfeites de Natal e uma arvore enfeitada pelos jovens do Vila Jovem. Meu coração se enche de alegria por ver brotando os frutos do projeto. Levo Felipe para conhecer o Vô Juquinha, famoso pelos casos sobre seus oitenta e quatro anos de tabagismo (começou aos sete), sanfona e suas silabas prolongadas. Vô Juquinha nos recebe zangado. Diz não querer falar de sanfona e reclama que não cortei suas unhas. Explico que iremos cortar. Felipe muda de assunto, pergunta o que teve no almoço. Vô responde sobre o cardapio do dia e avisa que não gosta de nada com caldo. Vamos perguntando sobre seus alimentos e recebemos a delicia de frase: 'Mandioca eu gosto. Frita não, cozinha. Você cozinha e no flagrante do momento, fica boa.' Mas não conversa muito. Guardamos a frase para a posteridade e deixamos o vô com sua zanga.
Tour pela cidade, pedaladas, conversas profundas com nossos belos cães de rua. Terminamos visitando o casal mais famoso e mais engraçado de Morada: Marley e Otavio, que acabaram de completar um mês de casados.
Falam conosco sobre como se conheceram, sobre as dificuldades e preconceitos que vencem todos os dias, sobre os planos para o futuro (quem sabe filhos???Com os olhos do Marley!!), sobre as regras da purrinha....E no flagrante do momento, combinamos de repetir a visita amanhã.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Grandes problemas, pequenas soluções.


Temos um grande problema no presidio: três dos presidiários são diabéticos em uso de insulina. E eles mesmo aplicam as injeções, duas vezes ao dia. Dois deles estão com as glicemias completamente descontroladas. Um devido aos doces e lanches trazidos pela família.
O outro é um rapaz de 29 anos, o atendi no primeiro dia de internato. Em seu prontuário, há um ano estão descritas crises de hipoglicemia e os outros alunos que o atenderam questionaram se ele não estaria usando insulina além do devido, propositalmente. Cada vez que ele tem hipoglicemia e desmaia, é levado ao hospital, ou seja, sai da cadeia um pouco. Em oito semanas aqui em Morada, atendi-o seis vezes. Expliquei sobre o esquema de insulina, escrevi na caixinha, o fiz repetir para ver se tinha guardado, expliquei sobre as consequências do diabetes a longo prazo, fiz terrorismo sobre as crises de hipoglicemia, diminui a insulina... Resultado desanimador: continuava tendo uma crise de hipoglicemia por semana.
Eu e Lid continuamos desconfiadas de que o paciente estivesse 'brincando com a insulina' e com a vida. Semana passada tentei trocar de tática, tivemos uma conversa sobre suas expectativas com a vida, o que ele fará quando sair da cadeia... Descobri que é um traficante. Pensei: 'ele não quer morrer'. Fui para BH pensando nesse caso e baixei um consenso sobre diabetes que ocupou mais espaço no computador que todas as músicas .
Hoje, nova consulta. R. impaciente, conta sobre mais um desmaio devido à hipoglicemia e  diz não entender o motivo da falha do tratamento. Eu também não entendo, eu também desanimo. Confiro com ele sobre a dosagem prescrita e horários, nenhum erro.
Uma última esperança: peço ao agente presidiário que me arrume uma seringa de insulina, sou atendida.
'R., quantas unidades de insulina você usa de manhã?' 'Sete da NPH e quatro da regular.' 'Me mostra como você prepara.' Tiro a agulha e estendo a seringa a ele. 'Assim, olha.' E na seringa marcada de um a 100, R. me mostra o setenta. 'Esse é o sete?' 'É sim, doutora.' Inocente e impaciente, confirma que está usando dez vezes mais insulina que o prescrito inicialmente.
Expliquei ao R. sobre a seringa, fizemos algumas simulações para confirmar se ele havia entendido e o encaminhamos ao Hospital para ficar internado até ajustar a insulinoterapia. Simples assim. Espero que funcione.

domingo, 4 de novembro de 2012

Culpando as mães


Atendendo a milhaaaares de pedidos, vou continuar nosso relato sobre as vivências de duas estudantes nascidas e criadas em Belo Horizonte numa península incrível chamada Morada Nova de Minas.

Como deve ser, adoro crianças. Incluindo as remelentas e emburradas, acho-as todas lindas , fofas, cute-cute nhenhenhem. De quebra, tive apenas professores excepcionais de pediatria ao longo da Faculdade. Cheguei em Morada esperando atender os catarrentinhos saudáveis ou quase e quem sabe pseudohiperativos. Feliz contente, adorei ver na nossa agenda os Rhuans Fellipes, Kathelyns Rairinys e as Jades já beirando a adolescência.
Doce ilusão. Minhas consultas pediátricas no primeiro mês foram pesadelos. As crianças universalmente lindas, mas... Inevitavelmente saíam do consultório emburradas comigo, as mães diziam ter entendido e não,nunca mais voltavam. Quase todas.
Primeiramente devido a onda de viroses respiratórias que não medicamos com antibióticos. Para as mães, criança com febre não receber antibiótico é igual a médico ruim,eca, nunca mais volto nele.
Depois devido ao perfil das mães. Super ultra trans extra protetoras, mas não percebem. Coisa comum é descobrir que a criança de seis anos dorme na cama com a mãe e o pai mudou de quarto. Que o menino de cinco anos anêmico faz nove refeições diárias, entre elas três mamadeiras. Obviamente com leite de vaca, nescau, açúcar e criptonita. Que a menininha de dois anos não fala uma palavra por falta de estímulo. Que o rapazinho de três anos mama na mãe cinco vezes por noite.
Inocentemente, identifiquei esses erros e expus às mães claramente: não, seu filho não precisa fazer uma colonoscopia porque caga fedendo. Não, não precisa de antibiótico. Não, não tem injeção, a fulaninha precisa comer melhor. Não tem nada de errado com seu filho, ele está numa idade de criar hábitos e a senhora é a responsável.
Fiquei frustrada, nessa série de hábitos errados, o desenvolvimento inteiro das fofurinhas fica comprometido. Recorri a uma ajuda preciosa : Dra. Paula, uma das professoras brilhantes que citei. Conselho: ter calma, ir comendo pelas beiradas, pedir um exame de fezes para acalmar a mãe, ir ganhando a confiança para ser ouvida. Essas mães amam, estão tentando fazer o certo.
Na mesma semana em que refletia sobre qual seria a melhor abordagem, numa manhã surgiram sete consultas pediátricas, todas com as queixas clássicas, ou seja, prato cheio para meu exercício. Fui exercitando a minha tolerância com o amor dessas mães, demorei mais tempo escutando, instigando, tentando conduzi-las a conclusões ao invés de orientar. Bingo!!!
Numa delas :' vim pedir um vermugueiro porque essa menina só come bobagem'. Fiz um diário alimentar, perguntando à mãe refeição por refeição da menina de três anos. 'Ai ela chega e come bala, bolo, bombom, pipoca. E não janta.' Registrei tudo sem tecer considerações, examinei. Displicentemente, perguntei: ' Escuta, a fulaninha trabalha?' A mãe assustou-se e respondeu que não. 'Ela cozinha?'. Novamente , não. 'Então quem está dando ou fazendo os lanches?'. A mãe riu, cúmplice, e reclamou do pai, dizendo que após o divórcio ele tenta agradar com quitandas. 'Tudo bem, sinal de que gosta dela. Mas a senhora concorda com isso?'. Não. Fizemos um calculo simples do que esse pai tem gastado e descobrimos que pagaria uma viagem para a praia em um ano. Após a mãe ter vindo com boas idéias para melhorar a alimentação, estimulei e pedi que voltasse em um mês para contar se funcionou. 'Se o pai dela não concordar posso trazê-lo aqui e a senhora conversa com ele?'
Mais que satisfeita, respondi que sim. Dessa vez a culpa não era da mãe.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Encontro dos rurais

As meninas que estão fazendo rural em São João Evangelista resolveram fazer uma festa para reunir as 80 duplas espalhadas por Minas. Animei desde o inicio. Lidiane relutou um pouco mas acabou animando: temos um amigo em São João que não viamos ha tempos e encontrariamos com ele. Chegamos do serviço sexta na hora do almoço, arrumamos as malas e fomos ver o mapa. Not bad, estrada praticamente reta, cortando Minas Gerais do Noroeste ao Nordeste.40 km de estrada de terra até a balsa, detalhes tão pequenos e barros tão grudentos. Fomos!
Lindo o trajeto... Iamos percebendo as nuances de relevo e vegetação. Tudo aqui perto mais plano e mais verde, mais lagos, no centro de Minas ia ficando mais amorrado e mais seco e a partir de Gouveia, cânions!!! Hectares e hectares de eucalipto nas margens...
Nosso amigo nos levou a conhecer o Instituto Federal de SJE, 1300 alunos- numa cidade de 16 mil, ensino médio e superior, muito bem equipado. E desde o primeiro minuto surgiu o papo no qual mais estamos afiadas: gestão. Ou melhor, o quanto as gestões estão viciadas em todos os niveis. O quanto a corrupção é institucionalizada em todos os setores. Discutimos com ele sobre o Instituto e dividimos algumas angustias daqui de Morada, da Faculdade de Medicina, da propria medicina...
Na casa do rural de São João, encontramos os colegas de Peçanha, Pompéu, Pitangui, Conceição do Mato Dentro, Serro, Ataléia , Leme do Prado e Valadares. Esperava uma festa tradicional de estudantes de medicina: churrasco, bebida e musica de gosto duvidoso. Claro que os itens básicos estavam presentes : pagode, sertanejo, forro e arrocha. O interessante foi o tema de noventa por cento das conversas: como tem funcionado o sistema de saúde nas cidades do interior. Fiquei encantada com o nível de percepção e amadurecimento que alcançamos: as preocupações, as ações... Uma amiga me contou que em sua cidade o que é oferecido para a população foi cortado quando o atual prefeito perdeu a eleição : 'Marcella, fico pensando... Não temos como denunciar isso?'. A questão é: 'Denunciar para quem?'. Estamos inseridos num sistema moroso, cruel e viciado.
SISTEMA! Não falo apenas de pessoas, não temos UM vilão. Em algumas cidades temos profissionais de saúde ruins que colocam vidas em risco. Em outras temos profissionais bons que esbarram em secretários de saúde ruins. Em outras temos profissionais e secretários bons que esbarram em prefeitos ruins. Em outras tudo é ideal, mas dependem de verbas ínfimas e não conseguem oferecer o que a população merece. Nem tento discutir o que é desviado a olho nu nessas cidadezinhas. O que deixa de ser feito por... qual o motivo mesmo? Por que temos profissionais que não recebem? Por que temos profissionais que recebem e não trabalham? Por que temos profissionais que recebem, trabalham mas não atendem demandas da comunidade? Por que temos comunidades que não se organizam?
Fica a certeza: Morada Nova é a melhor cidade, com todos os problemas intrínsecos ao nosso sistema de governo. E sim, precisamos nos envolver com política.

PS: Na volta tivemos uma soma incrível de impossibilidades: Corri numa estrada de terra para não perdemos a balsa, ouvindo Led Zeppelin e cantarolando que somos amigas do Neymar, passamos ao lado de um mico atropelado, paramos para tirar uma foto e a Lid não quis aparecer na foto!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Do fundo do poço ao topo do mundo!

   Terça feira, primeiro dia pra acordar com o horário de verão e nos atrasamos. Dez pra sete! Comi rápido e corri para o posto do Y pensando, pode ter alguém me esperando pra ser atendido.
   Quem dera. Chego e procuro nossa agenda pra ver se havia pacientes marcados e nada. Nem para amanhã ou depois. Nossa agenda estava guardada na gaveta, enquanto pacientes ligavam ou chegavam pra marcar consulta, mas com a Doutora, não com as estagiárias. Chega um rosto conhecido. Penso retorno de um paciente, fico a posto. Porém, o paciente foi marcado para a doutora. Nada contra a doutora que é excelente, sempre nos ajuda. Nosso problema está no menosprezo, somos apenas estagiárias, médicas só daqui 6 meses.
   Fico chateada. Acordei cedo, estou querendo atender com a maior boa vontade e dedicação. Não fui lá pra ficar à toa. E essa situação não foi a primeira vez. Marcella já chegou a conversar com os funcionários pra tentar mudar.Volto de lá me sentindo péssima. Converso com a Marcella que sugere pra tomarmos medidas mais drásticas: conversar com o chefe.Conversamos. Logo ele ligou para os funcionários e se prontificou a nos ajudar. Nada de agenda na gaveta! Sái de lá com mais esperança da situação mudar.
   Já hoje, no posto W, sempre temos muitos pacientes. Sái de lá meio-dia, uma hora mais tarde, porque tive que resolver muitas situações, tentei dar o melhor de mim. Sái preenchida, sem o vazio do dia anterior. 
Durante a tarde, melhor ainda. Tivemos a primeira reunião com os alunos sobre o projeto. Chegaram aos poucos. Marcella rezando para virem mais. Preces ouvidas, montamos cinco grupos e as atividades começam amanhã por vontade deles. A reunião foi muito envolvente. Uma das dinâmicas foi colocá-los como os idosos, na cadeira de rodas, cegos, surdos, com peso nas pernas para dificultar os passos. E a resposta produtivíssma. Lembraram das próprias famílias, da carência de avós que choram e olham de canto de olho pra ver se alguém esta prestando atenção. Foi muito bom ver em cada rosto a curiosidade, a disponibilidade, a vontade de fazer dar certo. Vieram cheios de idéias.
   Meu Deus como é bom renovar as forças dessa maneira. Vamos ao topo do mundo com essa energia!

Lidiane esteve aqui!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Salvando pardais #2

Outro dia, chegando em casa, vi uma massa rosa na porta de entrada. Como nosso telhado é cheio de ninhos de pardais, logo reconheci: um bebê pardal que havia caído.
‘Lid, tem um passarinho morto na nossa porta!’
(Melhor nem lembrar que eu mesma havia jogado água no telhado dois dias antes, tentando expulsar os pardais emporcalhadores de lá).
Almoçamos e me esqueci de remover o corpo do passarinho. Ao voltar , a surpresa: ‘Lid, o passarinho morto tá vivo!’. A massa rosa agitava levemente o que poderia vir a ser uma asa. Como uma criança, corri e busquei uma tampa onde pudesse colocá-lo. Agonizante, sem penas e com um hematoma na barriga, deixei-o quieto em cima do fogão. Lid descrente e entendida de passarinhos, avisou que este não viveria. Algumas horas depois, sentenciou: ‘Marcella, seu passarinho vivo morreu de novo. ’ Joguei a massa passarinho no lixo, culpada por ter tentado expulsá-los.
Hoje ao chegar, vi uma massa maior, dessa vez cinza, que se debatia no chão da garagem. Já com peninhas humildes, mais um pardal caído do ninho. ‘Lid, vem aqui, temos mais um passarinho!E acho que esse vive!’. Ouvindo meus gritos animados e sem entender do que se tratava, saiu do banheiro enrolada na toalha. Estendi a ela uma embalagem de margarina com o pardal dentro. ‘Esse vive,acho’.
Lid alimentou nosso passarinho (agora chamado Bilbo, vivo desde o inicio) e ele pia a cada pedacinho de pão que ela oferece num palito. Espero que ela tenha herdado da Dona Alice o talento para cuidar desses bichinhos. E juro, prometo e garanto não mais jogar água em pardais!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Impotência

Triste, impotente,fervilhando...
Outro dia pedi ao enfermeiro Alex que me acompanhasse numa visita domiciliar para conferir a medicação de uma senhorinha de 82 anos que sempre ia sozinha à consulta. Na volta pro posto, Alex me falou sobre uma paciente que estava sempre com pressão alta, apesar de toda a medicação prescrita pelo Dr. Gustavo(11 comprimidos por dia). Alex tem um jeito bem mineiro, manso, observador... A cada palavra dele percebo que existem dois mil pensamentos escondidos. Se ele me falou dessa senhora, era porque era necessário irmos vê-la.
Acabou que foi a Lid que foi com ele no dia seguinte. Voltou para casa esquisita, numa indignação que não se traduzia. Entrou para o quarto e saiu com um papel onde havia criado simbolos para toda a medicação que a paciente deveria tomar. Fiquei responsável por realizar a próxima visita.
...
A casa de Dona Maria é uma casa de tijolos num terreno de terra batida. Cerca irregular, plantas mal cuidadas, terra vermelha. Chegamos e estava tudo trancado. Uma gatinha malhada barriguda nos encarou com olhos verdes. 'Voltamos outro dia?' Não, ela vinha subindo a rua... Obesa, com andar vacilante e joelhos tortos, parando para descansar de tempos em tempos.
Cumprimentei-a e me apresentei como colega da Lidiane e pedi para termos uma conversa. Ela abriu a casa e me disse: 'vamos sentar na varanda, aqui dentro é quente'. Pior que quente, a casa inteira cheirava a urina, potencializada pelo calor.Nos sentamos. Varanda cheia de lixo, empoeirada... Restos de telha, espigas de milho comidas, caixas e caixas de papelão, sacolas cheias sabe Deus de quê.
Tentei sondar Dona Maria sobre a medicação, se ela sabia o que tomar, quais horários, pra quê eram os medicamentos. Não sabia. Tomava os remédios aleatoriamente.
Queixou-se de dor nos joelhos. Perguntei se ela gostaria de participar do grupo de exercicio do posto e ela se negou. Ia fugindo das perguntas, negando, desentendendo... Eu insistindo, sondando... E veio então, o momento em que ela foi direta:
'Estou esperando para morrer, minha hora vai chegar logo.' E chorou. 'Não tenho mais o que fazer, passo o dia sozinha vendo a rua, às cinco horas acaba o movimento e não tenho mais o que fazer.' Tampouco quis falar mais disso. Tentei dizer que ela ainda viveria muito ( ela abanava a cabeça), que poderia melhorar do joelho, do coração, da pressão... A cada negativa, sentia-me mais impotente, sem armas, nada me ensinaram sobre o que fazer quando o paciente rejeita o tratamento.
Dona Maria rejeita e implora por ajuda, quer companhia, quer atividades, quer melhorar. Mas não acata nenhuma sugestão. Tentei explicar sobre a folhinha da Lid, dona Maria não prestou atenção. Disse que vai tomar apenas os remédios que tem em casa e não vai buscar mais.
E todo nosso conhecimento sobre doenças e medicações não serve nesse momento. Toda nossa disposição vai de encontro a esse obstáculo. Como convencê-la a insistir, a buscar melhorias?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Romã pra grávida

   Pois então, depois de um fim de semana de plantões voltemos ao trabalho nos psfs. Ontem, chegamos em casa meia noite. Hoje a tarde preces para atendimentos tranquilos, pois ainda não estávamos recuperadas do cansaço. As preces foram atendidas e Marcella resolveu fazer quibe para nossa querida vizinha.
   Saímos pra comprar o que falatava para a receita saborosa e na volta Marcella olha com desejo para as romãs de uma casa simples. "Lidi, sempre que passo por aqui fico com vontade de comer romã. Posso falar que você está grávida e pedir romã?" Técnica que ela costuma usar com frequencia e sempre dá certo. Resolvemos ir lá pedir, a porta estava aberta, fomos pedindo licença e entrando.
   Surgem duas moças simpáticas que de cara já mandam a gente entrar pra pegar as frutas. A casa antiga, que por fora parecia ter dois cômodos, na verdade era enorme, quase um labirinto, com uma área grande de pomar.
   As moças nos ajudaram a pegar pitanga e amora. Marcella subiu no muro pra pegar suas apetitosas romãs. Conversa vai e as duas contas que são de BH e que vieram ficar com a mãe, de 87 anos, Dona A.
   Colhida as frutas e com promessa de voltar pra pegar manga. Fomos para a sala conhecer Dona A. Uma senhorinha na cadeira de rodas, elegante, logo se vê que recebe todo o carinho e atenção da família. Estava silenciosa, mas foi só estimular que foi nos contando diversos casos. Com dificuldade, pela surdez de Dona A, íamos perguntando suas histórias. "Que vestido bonito Dona A." Dona A: "Eu não gosto não. Tá parecendo uma camisola". "E como é que a senhora tá?". Dona A:"Eu tô mais ou menos. Tava falando com a minha vó, desde que eu fiquei doente tô como que uma preguiça!" A vó de Dona A já faleceu há um bom tempo, mas ela vai emendando e remendando sua história de uma maneira singela. E lá vem a filha explicar que a vó já faleceu. Se eu pudesse passava a tarde toda conversando com Dona A.
   Enfim, voltamos pra casa com as romãs e mais pessoas simpáticas no coração.

Lidiane esteve aqui!

O primeiro infarto... a gente nunca esquece!

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Minha proxima tatuagem vai ser um eletro...

Na última quinta-feira,eu e Lid fomos chamadas para dar plantão no hospital esse fim de semana. Estavam aguardando que o hospital enchesse devido a brigas políticas. Ficamos lisonjeadas e incomodadas com o convite : qualquer atividade sem supervisão é crime. O diretor do hospital se comprometeu a estar conosco e a coordenadora da Secretaria da Saúde nos orientou a ligar para o professor. O professor reforçou as orientações  legais e nos liberou pro plantão.
Tive pesadelos duas noites seguidas com esses plantões. Num deles, ao invés de atender pacientes eu era obrigada a brincar com um cachorro do diretor.
Chegamos cedo, evoluímos os pacientes internados e fomos tomar café calmamente, aproveitando para bater papo com a enfermagem.
A enfermeira de plantão veio até nós falando sobre uma paciente de 62 anos, hipertensa, diabética e tabagista que estava com dor no peito. Pedi para fazer um eletrocardiograma dela e já íamos. Lidiane me entregou o eletro séria : SUPER SUPRA ( traduzindo: a paciente estava infartando!). Fui colher a história, examinar e medir a pressão dela: vinte e um por onze! Senhora M. começou a me contar um caso e eu a interrompi: 'senhora, depois quero ouvir muitos casos,mas agora preciso que a senhora descanse e fique tranqüila, a senhora está tendo um infarto. Vou discutir seu caso com Dr. Antônio e volto num minuto.'
Mostrei o eletro ao Dr. Antônio: ' começa a tratar que vou tentar transferi-la'.
Comecei com o que eu lembrava : oxigênio, morfina, isordil,aas. Nesse ínterim, apareceram algumas vitimas de um acidente de carro que demandaram a atenção da Lidiane. Dr. Antônio me pediu para passar o caso para o médico-anjo de Sete Lagoas, Dr. Henrique. Dr. Henrique:' Realmente,ela está infartando. Mas não temos tempo para esperar que ela venha para Sete Lagoas,ela vai ter de receber a medicação ai:estreptoquinase.'. Me passou todas orientações sobre o restante da medicação e caso o eletro não melhorasse, estariam a esperando em Sete Lagoas.
Fiquei muito nervosa,quase cega ao que não dizia respeito à M. Fiz todas as medicações conforme o protocolo. Dr. Antônio checou as prescrições, mas como a Lid, estava ocupado com os acidentados.
Em um momento a Lid veio me dizer para eu me acalmar. A paciente melhorou rápido da dor, e uma hora após a medicação,o eletro já estava melhor. Que alívio!
Ainda brinquei com ela : a senhora foi minha primeira paciente, não poderia estar gripada?
M. evolui bem e somente hoje conseguimos a transferência para observação num hospital maior. O Dr. Henrique não estava no plantão em Sete Lagoas e o outro médico além de grosseiro, não tinha vaga para ela.
Percebo aos poucos o quanto é dicotômico trabalhar com saúde. E se a senhora M evoluisse mal num hospital pequeno como o de Morada? E se não tivéssemos estreptoquinase aqui, daria tempo de chegar em outro lugar para tratar? E se eu fosse cabeleireira, dormiria mais tranqüila antes de ver senhora M andando de bicicleta?
Ainda com tantos seS, só posso agradecer a Deus por ter escolhido estudar medicina. A emoção ao ver um rabisco de eletro e traduzir isso para melhora da paciente é inacreditável, se é que alguém consegue entender essa louca alegria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Traçadal...

Hoje foi meu primeiro dia de atendimento no Traçadal, a zona rural mais rural daqui.
O motorista da prefeitura nos leva até lá. Uma estrada de terra em que a poeira é um talco de tão fina. Depois atravessamos de balsa e andamos um outro tanto de estrada de terra em meio as vastas plantações de eucalípto.
Enfim chegamos a um pequeno vilarejo. Casas esparças, alguns cercados para as galinhas, um lago e duas capelinhas. Capelinha mesmo! A outra um pouco maior está sendo reformada dedicadamente com a ajuda dos moradores e outros colaboradores. Passamos em frente a uma construção com cara de nova, grande, contrastando com as casas. "É o posto de saúde, foi construído há 4 anos, mas nunca foi usado. Não se sabe porquê." O posto de saúde antigo onde trabalhamos é quase em frente, pequeno, quase menor que a capelinha.
Vamos então ao atendimento. Pacientes simpáticos. A enfermeira ganha ovos e elogios. Um pequeno grupo se reúne e do atendimento vamos para um bate papo caseiro, bom demais. É hora de ir embora. Volto com a promessa de um almoço e café da tarde. Volto mais calada também. Com a sensação de que a vida ali prossegue de outra maneira. Devagar, tranquila. Um desapego que não sei explicar exatamente. Só sei que é bom. Bom apenas sentar para tomar café com o compadre e jogar conversa fora sem preocupar com a hora. Pela simplicidade, Deus deve ter um carinho especial ali.
Depois de voltar num calor daqueles, fomos para o clube a convite de nossa vizinha super bacana!Dia lindo, refrescante, divertido! Terminamos o dia com o primeiro pedido dos famosos bolinhos de Tilápia. Maravilhosos!!! E o preço tão pequeno não condiz com o tanto que é gostoso, incrível! Saboroso nosso fim de noite.
Amanhã teremos uma aventura diferente. Diferente pela situação entre a cruz e a espada. 
Mas enfim, se Deus é por nós, quem será contra nós.

Lidiane esteve aqui!


Impressões na Vila: casamento do Marley e do Otávio

Hoje Marley e Otávio vão se casar. Será o primeiro casamento gay em Minas Gerais. Deixarei minhas considerações para depois. Conhecemos o Marley na última terça, um ex-gordinho simpaticíssimo, com os olhos azuis mais verdes da galáxia. Falante e divertido, nos prendeu num oi que deve ter durado uma hora. Delícia conversar com ele, mal posso esperar para conhecer também seu noivo, Otávio vulgo Bombom.
Como o Bombom é cuidador de idosos, os vovôs da Vila Vicentina estão todos convidados para o casamento. Por diversão, sondei algumas vovós sobre o assunto.

'Eu não vou não. Nunca vi homem casar com homem!' A primeira não deu mais papo.

Resolvi perguntar pra Vó Alzira, nosso xodó. Tento escrever da maneira mais parecida ao jeito dela falar.
' Vó, a senhora vai no casamento?'
'Do Marley e do Otávio? Eles num me chamaram, num vou não!'
'Chamaram sim, Vó,chamaram todo mundo aqui.'
'Cumigo num falaram. Até queria ir.'
'Mas não tem problema casar homem com homem?'
'Tem nada, filha. Marley é macho-fema. Homem com homem num tem problema. Só nunca vi casamento sem noiva, um dos dois vai tê de pô vestido.'

Rindo da Vó até agora. Dezembro é aniversário dela, estamos planejando uma folia.
Ah, e o pessoal do asilo amou o Vila Jovem, Deus abençoe nosso projeto!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mais um dia de aventura...

Hoje, mais um dia que a minha mãe tem certo temor: as terças de atendimento no presídio. Mas se ela estivesse atendendo conosco veria que não há exatamente o que o temer.
Pela manhã atendemos no posto de saúde. Dia tranquilo, movimento reduzido pelo alvoroço das campanhas políticas.
Fomos então para o presídio depois de bem alimentadas pela D. Iris. Atendemos pacientes novos e depois os retornos da semana passada.
"E então Sr Z, como está a micose?" Pergunto para um rapaz novo, me pensando internamente porque ele não está no trabalho ou estudando. "Do mesmo jeito, não tinha pomada." Pergunto ao policial se alguém foi na farmácia e ele responde que na terça não tinha medicação. Ótimo, na quarta chegaram os medicamentos. A rotatividade de funcionários durante a semana não permite um controle adequado das prescrições.
"E então Sr Y, fez as medidas da glicose?" "Fiz, mas perderam os papéis onde anotaram as medidas."
Já estava ficando com aquela sensação de trabalho perdido, quando muito disposto o policial responsável de hoje se oferece pra ficar responsável pelas medidas da glicemia.
Marcella teve a idéia de anotar todas as condutas pra cada paciente atendido para facilitar o serviço dos policiais.
De pouco em pouco vamos nos ajeitando.

Lidiane estave aqui! 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Projeto Vila Jovem: o embrião

Minha barriga doeu tanto que pensei que ia morrer- ou entrar em trabalho de parto (nããão,relaxem!). Lembrei-me de que fiz um lanche bobo as cinco da tarde- era fome!!
Fui comer um sucrilhos satisfeita: acabei de finalizar um esboço do Projeto Vila Jovem.
Na nossa visita ao asilo na última quarta, Lid ficou muito chateada com a ociosidade dos vovôs. O asilo se chama Vila Vicentina, é uma entidade filiada a Sociedade de São Vicente de Paulo. Lá moram 17 idosos em pequenas casinhas. Os funcionários são verdadeiros anjos, que cuidam de casa passo dos idosos, além da alimentação e vestuário. Apesar de terem atividades diárias, nossos vovôs ficam com bastante tempo ocioso. Cabeça vazia não é oficina do alemão? Do alemão, da depressão e do demo. ' Marcella, precisamos ocupa-los mais!' . Concordei, pensaríamos em algo. Precisávamos de algo sustentável, algo que continuasse quando formos embora.

Pausa nos vovôs. Melhor, parêntesis antes, a Lid quer ser geriatra!
Pronto,pausa.
Tanto eu como Lid já trabalhamos  com crianças e adolescentes. Por incrível que pareça, gostamos muito. Desde antes de vir para cá, o professor nos advertiu da alta taxa de drogadição e gravidez em adolescentes aqui em Morada Nova. É uma constante, os jovens falam que a cidade não oferece atrativos. Já existem algum estratégias por aqui, como o cinema semanal na Casa de Cultura e o NUPE, que é um núcleo de apoio. Ainda assim, a queixa de falta de atrativos persiste.
Não podemos basear a insatisfação dos jovens pelos drogaditos, pais e mães na adolescência. Para cada mãe de treze anos, teremos dez meninas entediadas!

Foram as principais observações da nossa primeira semana. Na quinta a noite, uma luz acendeu: porque não colocar esses jovens ministrando oficinas no asilo? É o óbvio ululante, agir em dois problemas com uma mesma estratégia... A secretária de saúde e a secretária de educação adoraram: pediram que escrevêssemos um projeto e apresentássemos  aos professores no dia 16 de outubro.

Empolgadíssimas, procuramos material no final de semana sobre atividades com idosos, depressão em idosos... Minhas discussões com a Lid são ótimas, como nosso objetivo é o mesmo, estamos sempre construindo, agregando... Depois de conversarmos , ela foi dormir e fiquei passando para o papel nossas idéias: nasceu o Projeto Vila Jovem!!

Objetivo: explorar as habilidades dos jovens em música, dança, teatro, artesanato, jardinagem e mesmo a boa vontade em ouvir e contar histórias para alegrar nossos vovôs! Estou tão animada com a perspectiva! Amanhã procuraremos os coordenadores do asilo.

E quem tiver dicas de oficinas e atividades, mande para nós!
' You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one...'

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As surpresas que Deus prepara

Costumo dizer que sou filha única de Deus. Só quem percebe o amor Dele entende isso, de sentir um amor tão grande que me faz pensar que sou a preferida. Hoje fizemos pequenas cirurgias no bloco cirúrgico do hospital. Durou a tarde inteira, estávamos sozinhas, dificuldade em conseguir todo o material que precisávamos, uma acompanhante se irritou com a demora, uma paciente idosa sangrou muito... Quando acabou, que alívio, quero minha mãe, quero minha casa.
Saí do hospital preocupadíssima com a senhora que sangrou, pensando nas piores complicações possíveis, consegui me ver presa e impedida de formar. Atravessando a praça principal, a encontramos com a irmã e uma amiga, as três mocinhas septuagenárias tomando um sorvete inocente. Pensei: mas que situação providencial, posso ir para casa tranqüila. Mais que isso, a senhora perguntou a que hora estaríamos em casa, queria levar uma comida para nós.
Agradecemos e fomos comprar pão, eram seis da tarde e estávamos sem comer desde o almoço. No momento de pagar, que tristeza: percebi que faltava dinheiro na minha carteira. Não dez reais, mas os cem que estavam lá para eu comprar passagem para BH. Procurei esse dinheiro até no telhado, mesmo estando certa de que estava na carteira.
E agora, quem culpar? Claro que fui displicente,mas não quero esperar que alguém da minha convivência abra minhas coisas. Decepção, a mochila só ficou solta nos centros de saúde. Pensei em brigar, em reclamar, em falar até com a secretária de saúde, era o dinheiro da minha passagem. A solução foi quase chorar, mas a Lid veio, me distraiu, fomos pensando em outras coisas, comemos,e fomos fazer exercício. Uma hora depois, já tinha esquecido a tristeza. Paciência, o mundo ainda é um lugar ruim. Será?
Dona Ívis, nossa mãe daqui de Morada, tinha nos chamado para ir no baile da Terceira Idade, que ocorre toda quinta. Entre curiosas e divertidas com a situação, fomos! Ao entrar, dois galpões, um sanfoneiro, um cantor e um tecladista. Vários casais dançando, entre oito e oitenta anos. Dona Ívis, cadê? Fomos abordadas por um rapaz que parecia bêbado e antes que pudéssemos entender uma frase qualquer, outro rapaz nos chamou. Nos conhecia do vôlei e nos chamou para sentar numa das mesas.
Que sentar que nada! Minutos e já estávamos também na pista! Dançamos dançamos, com os pares mais improváveis possíveis, os passos mais irreprodutíveis possíveis. A música parou, ia começar o bingo. Lid foi comer pastel e eu, a pedido da simpática Dona Ester, comprei uma das cartelas.
Esclareci: não ganho nem par ou ímpar. Acompanhei o pessoal da mesa marcar diversos números... Disse a Lid: Não sei jogar esse jogo,viu? Lid: marca o índio que dá sorte! Não é que deu? Ganhei o bingo da terceira idade!!!Um aparelho de DVD!
Vovôs e Vovós vieram me cumprimentar, um deles veio preocupado conferir se estava tudo completo, se estavam todos os cabos em ordem...A todos prometi voltar na próxima quinta.
Dona Ester nos presenteou com cinco minutos de conversa alegre e com uma foto. E eu termino o dia pensando em como Deus prepara surpresas a todo momento, em como uma pessoa que faz mal a alguém é minoria perto desses nossos vovôs e vovós dançarinos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Folia da Vó

(No asilo,batendo papo com uma senhorinha- inha mesmo, um metro e quarenta)

-Tô querendo é fazer uma 'fulia'.
-Folia, vó? Como assim?
-Ah, filha, 'fulia' é assim: 'nóis' junta tudo e compra comida: arroz, feijão, carne. Dispois nóis senta na mesa, fica nóis tudo ao redor da mesa. Aí nóis come, né? E dispois tem alguém que vem com algum instrumento e canta.Tem até um rapaz aqui perto que traz o instrumento.  Isso que é 'fulia'.

Hm, então tá. Mal posso esperar pela 'fulia'!!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Em época de campanha...

Resolvemos fazer nossa caminhada pela cidade, conhecer as possibilidades de ficar musculosas na academia e outras atividades oferecidas pela vizinhança.
Assim descobrimos que aqui não há carro de som, mas bicicleta de som. 
E lá vai a bicicleta com paródias sertanejas pedindo pelo candidato X. 
Ok, chegamos a metade do caminho, vamos voltar. A bicicleta de som, também volta, o rapaz entra em casa e instantes depois sai. Mudou o disco. Do sertanejo para gospel, fazendo propaganda agora para o candidato Y. 
É, devem ser raras as bicicletas de som. E mais rara a fidelidade partidária.

Lidiane esteve aqui!

Na cadeia

Segundo dia de serviço e primeiro dia acordando as seis da manhã, com um sol digno das três da tarde. Trabalhamos de manhã nos PSFs, tivemos tempo para um cochilo após a deliciosa comida da Dona Ívis e de tarde, atendimento na cadeia.
Cadeia cadeia... Trinta mil vozes em minha cabeça, trinta mil opiniões diferentes sobre como seria atender presidiários. Fomos alertadas que as queixas são principalmente relacionadas ao sono e ansiedade. Me sentia o Drauzio Varella indo pro Carandiru, ia preparada para segurar o choro. Lidiane, Sra. Serenidade Angelical, resolveu que não pensaria muito no assunto,economizar sofrimento.
Os agentes penitenciários nos receberam e improvisaram uma sala de atendimento numa sala que deveria ser uma copa. A antiga sala onde eram feitos os atendimentos tem rachaduras gigantescas e não será usada por motivos de segurança. Não pude deixar de imaginar sobre o restante da casa,que não conhecemos,ainda. Um policial civil sentou conosco e traduzindo seu policiês para português claro, nos pediu que solicitássemos somente os exames estritamente necessários, já que eles tem pouco contingente para levar os presos ao laboratório.
Mas.... O auge se deu logo na primeira consulta! Ficamos as duas na sala com o preso, algemado, e o policial na porta. Não há maca para examinar o paciente, ou seja...Exame do abdome bem prejudicado. Exame em geral bem prejudicado.
Não há como fazer intervenção nenhuma, pedir que o paciente se exercite, que alimente melhor, que durma melhor. Todos os quadros são influenciados pelo fato de estarem presos, pelo fato de não terem muita perspectiva. QO que temos a oferecer é tão pouco que chego a duvidar de nossa utilidade ali.
Lid atendeu o primeiro paciente. Queixa: coceira e lesões na virilha. Logo pensamos em micose. Ela sentada de frente a ele e eu em pé atrás dela. Momento do exame físico... Eu pensando ' A Lid vai passar uma Nistatina e perguntar se melhorou semana que vem.'
Lidiane com a naturalidade de quem diz bom dia ' Vou precisar que você tire a calça para eu examinar.'
Paciente:'Mas aqui a gente não usa cueca.'
( eu sem piscar,mas que cena sensacional!!!!)
Lidiane como se pedisse 'passa a faca?', vira para o agente penitenciário e pergunta se o paciente pode ir vestir cueca. Diante da negativa, pede ao agente um lençol ou algo para cobrir. Surge uma camisa vermelha,do uniforme dos presos.
Triunfal, Dra. Lidiane oferece a camisa ao preso e pede que ele a use para tampar o órgão que não queremos ver. Ele, algemado, abaixa a calça com dificuldade e usa a camisa... Nossa querida põe luva, arreda o órgão prum lado, pro outro, como se manipulasse um outro objeto qualquer, expõe bem as lesões. Micose, mesmo!
Nossa doutora brilhou!
Saí de lá tensa, com mais pensamentos do que ao chegar, pensando em nossa sociedade, em nosso sistema prisional, em nosso sistema de saúde. É justo?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

   E de repente nossa vizinha chama do lado: "Ei, meninas, querem jogar vólei?"
Lá fomos em busca da quadra, procuramos informações: "Boa noite, onde fica a quadra poliesportiva?" 
Acho que quando a cidade é pequena as distâncias ganham outras dimensões: "Vocês vão andar muito, fica a 5 esquinas daqui virando para a esquerda."
Mas a melhor resposta estava por vir de um rapaz criterioso: "Se não for lá deve ser em outro lugar."
Realmente as distâncias e as circunstâncias mudam.
Partidas jogadas, novas caras, acho que até o final da semana conheceremos todo mundo.

Lidiane esteve aqui!

Chegando...!

Tinindo trincando: A chegada
Após cinco anos estudando e sofrendo,chega o tão esperado Internato em Saúde Coletiva- o Rural! Eu e Lidiane,minha dupla desde o segundo período( só sei que foi assim), escolhemos Morada Nova de Minas como nossa primeira opção. Apesar de não termos sido bem sorteadas, conseguimos vir para Morada. Era a cidade com maior diversidade de atividades: PSFs, asilo, cadeia, cirurgia ambulatorial e área rural. Cidade pequena, a 300km de BH, à beira da represa de Três Marias e plana!
Trouxemos nossas bicicletas e nossos cinco anos de sonhos para cá, na companhia da minha mãe.
Viagem gostosa, tranqüila. Pará de Minas, Pitangui, Martinho Campos, Paineiras, Biquinhas e Morada! Em Paineiras fiquei com medo do sotaque da população de Morada- serei chamada de MaRRRcella?? Logo logo percebi que não.
Chegamos,enfim. Cidade lindinha, pequena, rodeada de água.
A casa do Rural, perfeita! Fácil de achar, arejada, com três quatros (a Lid ficou com a suíte) e uma área com piscina. Minha mãe horrorizou-se silenciosamente com o ambiente propicio a festas.Almoçamos no Vandeco, arrumamos todas as nossas coisas, tiramos as ervas daninhas ao redor da piscina, colocamos um bolo para assar e percebemos que ainda eram três da tarde. Rimos: aqui o tempo rende!
Saímos para 'explorar' a cidade. Eu na Gerusa e Lid no Maicon, nossas bicicletas. Voltamos com os pés vermelhos e conseguimos descobrir alguns pontos importantes: a prefeitura, o PSF Varginha, várias mercearias, a loja de bicicletas, o Banco do Brasil, a Igreja... Boas tardes nos rodearam,além dos olhares curiosos de quem já conhece todos os habitantes daqui.
As sete, nos perdemos ao caminho da missa. Num curto trajeto,passamos por dois comícios. Temos três candidatos numa cidade de oito mil habitantes. Chegamos atrasadas e logo no final, o padre perguntou se havia alguém de fora-para receber uma salva de palmas. Sorte que não éramos as únicas.
Ao fim da missa, avistei uma mulher conhecida. 'Lid,conheço aquela mulher, ela era da faculdade. Deve ser médica aqui!' E era mesmo, Helen, que nos apresentou ao seu namorado Gustavo e a enfermeira Mariana. Depois de muito papo na porta da Igreja, o casal nos levou a conhecer a cidade- dez minutos foram mais que suficientes- e para comer pizza.
Clima delicioso de interior. Hoje, nosso primeiro dia de trabalho, fomos otimamente acolhidas e respeitadas em todos os lugares. A experiência de tomar decisões e 'carimbar' tudo é sensacional!!

Chegando...!

Tinindo trincando: A chegada
Após cinco anos estudando e sofrendo,chega o tão esperado Internato em Saúde Coletiva- o Rural! Eu e Lidiane,minha dupla desde o segundo período( só sei que foi assim), escolhemos Morada Nova de Minas como nossa primeira opção. Apesar de não termos sido bem sorteadas, conseguimos vir para Morada. Era a cidade com maior diversidade de atividades: PSFs, asilo, cadeia, cirurgia ambulatorial e área rural. Cidade pequena, a 300km de BH, à beira da represa de Três Marias e plana!
Trouxemos nossas bicicletas e nossos cinco anos de sonhos para cá, na companhia da minha mãe.
Viagem gostosa, tranqüila. Pará de Minas, Pitangui, Martinho Campos, Paineiras, Biquinhas e Morada! Em Paineiras fiquei com medo do sotaque da população de Morada- serei chamada de MaRRRcella?? Logo logo percebi que não.
Chegamos,enfim. Cidade lindinha, pequena, rodeada de água.
A casa do Rural, perfeita! Fácil de achar, arejada, com três quatros (a Lid ficou com a suíte) e uma área com piscina. Minha mãe horrorizou-se silenciosamente com o ambiente propicio a festas.Almoçamos no Vandeco, arrumamos todas as nossas coisas, tiramos as ervas daninhas ao redor da piscina, colocamos um bolo para assar e percebemos que ainda eram três da tarde. Rimos: aqui o tempo rende!
Saímos para 'explorar' a cidade. Eu na Gerusa e Lid no Maicon, nossas bicicletas. Voltamos com os pés vermelhos e conseguimos descobrir alguns pontos importantes: a prefeitura, o PSF Varginha, várias mercearias, a loja de bicicletas, o Banco do Brasil, a Igreja... Boas tardes nos rodearam,além dos olhares curiosos de quem já conhece todos os habitantes daqui.
As sete, nos perdemos ao caminho da missa. Num curto trajeto,passamos por dois comícios. Temos três candidatos numa cidade de oito mil habitantes. Chegamos atrasadas e logo no final, o padre perguntou se havia alguém de fora-para receber uma salva de palmas. Sorte que não éramos as únicas.
Ao fim da missa, avistei uma mulher conhecida. 'Lid,conheço aquela mulher, ela era da faculdade. Deve ser médica aqui!' E era mesmo, Helen, que nos apresentou ao seu namorado Gustavo e a enfermeira Mariana. Depois de muito papo na porta da Igreja, o casal nos levou a conhecer a cidade- dez minutos foram mais que suficientes- e para comer pizza.
Clima delicioso de interior. Hoje, nosso primeiro dia de trabalho, fomos otimamente acolhidas e respeitadas em todos os lugares. A experiência de tomar decisões e 'carimbar' tudo é sensacional!!