Ficamos muito tempo sem escrever, não por não ter acontecido nada, mas por estar acontecendo coisa demais. Estamos na reta final, acabando nossa estadia aqui em Morada Nova. Com tanta coisa, pensei em escrever algo de despedida, quando um acontecimento hoje me obrigou a escrever mais.
Temos um paciente (Seu A.) no asilo (Vila Vicentina) que é hipertenso e tem sequelas de um derrame. Nesse derrame, perdeu o movimento do braço direito e ficou afásico, tem dificuldades em entender o que falamos e em responder. Repete as frases que fala e gesticula bastante, para melhorar a comunicação. Quando alguém pergunta sobre o derrame, ele nega com a cabeça e diz : ‘Não, não, não. Feitiço. Foi bodoco que o Tonho colocou.’ E repete as frases. Suponho que bodoco seja Vodu.
Seu A. tem a pressão descontrolada. Tenho tentado ajustar a medicação semanalmente desde outubro. Semana passada estava bom. Hoje fui conferir. Encontrei-o nos fundos de sua casinha, no meio do mato. Chamei: ‘Passa pra cá, seu A.? Preciso falar com o senhor.’ Ele veio a contragosto e não quis conversa. Permitiu que eu medisse a pressão: vinte por dez. Dei um comprimido e avisei que ia medir de novo. Tentei conversar, ele se negou, disse que ninguém acreditava nele.
Fui perguntar às cuidadoras se ele estava tomando a medicação direito e descobri que ele tem se negado. Esperei o tempo para a medicação fazer efeito e voltei. Ele estava novamente no mato, o chamei. ‘Que o senhor tá fazendo?’ ‘Mijando.’Agitou os braços , nervoso: ‘Foi pro outro lado, pensei que fosse embora.’ ‘Não, seu A., preciso medir a pressão.’’Não, não, não vai medir não que mediu agora.’
Saiu do mato nervoso e por um instante tive medo de que ele me agredisse, repetia que eu não ia medir de novo. Fui insistindo, prometi medir e depois ir embora. Por fim, ele aceitou e se sentou. Começou a dizer frases emboladas, sobre gambá, que a pressão tava alta por isso, falava o nome de um político importante daqui, e gritou: ‘Alcoólico!’. ‘Quem, seu A.?’ Repetiu o nome do político e disse que a pressão dele estava alta por isso. ‘Por quê?’. Repetiu o nome do político e disse ‘Eu também sou’. Continuou emendando frases, falando do gambá, até que entendi AA. ‘AA?’. ‘AA, eu sei tudo, cabeça boa.’ Foi entrando para casa e falando comigo. Era pra entrar também.
Foi embolando mais frases, dizia saber muito, falava que o gambá tem quatro patas e ele era como um gambá. Abriu um baú cheio de roupas emboladas e tirou uma mochila preta do fundo. Abriu a mochila e tirou uma bolsa menor, marrom. Dentro dessa bolsa, uma outra preta. Abriu o bolsinho de fora, tirou um chaveiro e me estendeu, em silêncio. Eram três placas de acrílico, uma rosa, uma laranja e uma azul. Em todas, a inscrição do AA, o nome completo de seu A. e o tempo sem beber. Três, seis e nove meses, em 1992. Fui perguntando sobre o alcoolismo. Dizia ser alcoólatra de nascença, que não pode nem sentir cheiro. Ia emendando e repetindo frases, enquanto eu tentava desvendar e estimulá-lo a continuar falando. Apontava o dedo: ‘Fulano bebe pra farra, fulano bebe pra briga, eu sou de nascença.’ Ficava nervoso ao lembrar do político, dizia ter bebido muito com ele, e se indignava: ele estava bem por ser rico e ter uma esposa que o colocava nas rédeas. Justificava a pressão alta pela vontade de beber a primeira cachaça depois de 20 anos, como um gambá.


