segunda-feira, 29 de abril de 2013

Despedida

Hoje deveria ser silêncio,  morreu uma amiga, um ser de luz que encheu uma cidade inteira. Conheci Vó Dalzira através de fotos. Tortinha, risonha e abusada. Um sorriso inocente e debochado. Nos recebeu no nosso primeiro dia como quem recebe um parente, bateu palmas e disse : ‘Estava esperando vocês!’. E não mais nos abandonou. Cada visitante da Vila era recebido como uma visita papal.
Passinhos curtos e sem pressa, mas sempre indo. Quero ir embora daqui, quero uma roca de fiar, quero fazer uma folia, cadê o Chiquito, quero ‘Coxina’, tô precisando ir pra lá Sá, combinei de ganhar um porco, quero um vestido de fita, to com gripe nos olhos, esse Tião não tem educação... Vai embora não Sá, janta com a gente, falo isso mas é brinquedo... Vó, quantos anos a senhora tem? Sei não, tem de ver o documento. Oitenta, Vó. Ah, é...
E ria, e ria silenciosamente, nos envolvendo com uma alegria pura e simples. Não houve uma pessoa que a conheceu sem se encantar.
Olhinhos brilhantes, inocentes...  Sonhava em ter sua casa, em criar galinhas, em cantar a folia de Reis que aprendeu nos tempos do Chiquito. Cabecinha caprichosa, sem estudo, ia apagando e bordando suas memórias.
No dia dos seus anos, esperei que a folia começasse dentro da capela, cuidando da Vó Dalzira e do folião mais novo. Pensei que jamais viveria um momento tão mágico na vida. Estava errada, era a senhora cuidando de mim, vozinha... Só não fico triste porque Deus devia estar com saudade por ter passado oitenta anos longe da senhora.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A vontade do gambá


Ficamos muito tempo sem escrever, não por não ter acontecido nada, mas por estar acontecendo coisa demais. Estamos na reta final, acabando nossa estadia aqui em Morada Nova.  Com tanta coisa, pensei em escrever algo de despedida, quando um acontecimento hoje me obrigou a escrever mais.
Temos um paciente (Seu A.) no asilo (Vila Vicentina) que é hipertenso e tem sequelas de um derrame. Nesse derrame, perdeu o movimento do braço direito e ficou afásico, tem dificuldades em entender o que falamos e em responder. Repete as frases que fala e gesticula bastante, para melhorar a comunicação. Quando alguém pergunta sobre o derrame, ele nega com a cabeça e diz : ‘Não, não, não. Feitiço. Foi bodoco que o Tonho colocou.’ E repete as frases. Suponho que bodoco seja Vodu.
Seu A. tem a pressão descontrolada. Tenho tentado ajustar a medicação semanalmente desde outubro. Semana passada estava bom. Hoje fui conferir. Encontrei-o  nos fundos de sua casinha, no meio do mato. Chamei: ‘Passa pra cá, seu A.? Preciso falar com o senhor.’ Ele veio a contragosto e não quis conversa. Permitiu que eu medisse a pressão: vinte por dez. Dei um comprimido e avisei que ia medir de novo. Tentei conversar, ele se negou, disse que ninguém acreditava nele.
Fui perguntar às cuidadoras se ele estava tomando a medicação direito e descobri que ele tem se negado. Esperei o tempo para a medicação fazer efeito e voltei. Ele estava novamente no mato, o chamei. ‘Que o senhor tá fazendo?’ ‘Mijando.’Agitou os braços , nervoso: ‘Foi pro outro lado, pensei que fosse embora.’ ‘Não, seu A., preciso medir a pressão.’’Não, não, não vai medir não que mediu agora.’
Saiu do mato nervoso e por um instante tive medo de que ele me agredisse, repetia que eu não ia medir de novo. Fui insistindo, prometi medir e depois ir embora. Por fim, ele aceitou e se sentou. Começou a dizer frases emboladas, sobre gambá, que a pressão tava alta por isso, falava o nome de um político importante daqui, e gritou: ‘Alcoólico!’. ‘Quem, seu A.?’ Repetiu o nome do político e disse que a pressão dele estava alta por isso. ‘Por quê?’. Repetiu o nome do político e disse ‘Eu também sou’. Continuou emendando frases, falando do gambá, até que entendi  AA. ‘AA?’. ‘AA, eu sei tudo, cabeça boa.’ Foi entrando para casa e falando comigo. Era pra entrar também.
Foi embolando mais frases, dizia saber muito, falava que o gambá tem quatro patas e ele era como um gambá. Abriu um baú cheio de roupas emboladas e tirou uma mochila preta do fundo. Abriu a mochila e tirou uma bolsa menor, marrom. Dentro dessa bolsa, uma outra preta. Abriu o bolsinho de fora, tirou um chaveiro e me estendeu, em silêncio. Eram três placas de acrílico, uma rosa, uma laranja e uma azul. Em todas, a inscrição do AA, o nome completo de seu A. e o tempo sem beber. Três, seis e nove meses, em 1992. Fui perguntando sobre o alcoolismo. Dizia ser alcoólatra de nascença, que não pode nem sentir cheiro. Ia emendando e repetindo frases, enquanto eu tentava desvendar e estimulá-lo a continuar falando. Apontava o dedo: ‘Fulano bebe pra farra, fulano bebe pra briga, eu sou de nascença.’ Ficava nervoso ao lembrar do político, dizia ter bebido muito com ele, e se indignava: ele estava bem por ser rico e ter uma esposa que o colocava nas rédeas. Justificava a pressão alta pela vontade de beber a primeira cachaça depois de 20 anos, como um gambá.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Vila Jovem: enfeitando a Vila

Parte de fora da casa do Vô Juquinha
Os meninos do Vila Jovem foram à Vila Vicentina enfeitar as casinhas. Se dividiram em duplas e cada dupla ficaria responsável por presentear um dos vovôs na festa de Natal e enfeitar a casinha.
Esses meninos são um sucesso! Organizaram-se, pediram aos pais enfeites que estivessem sobrando, planejaram como gostariam de enfeitar... Com tanto carinho, pensando em cada avô, em suas particularidades...
Vô Juquinha é quase cego, a casa foi enfeitada por dentro, com piscas-piscas. Pensamos que ele não conseguiria ver os enfeites então caprichamos nas luzes. Ao chegar em casa :' Uai, não tem isso todo ano não.Parecem estrelas! Fiquei muito satisfeito! Deus que abençõe as senhoras e tire do caminho todo mal que surgir. Que tudo de ruim que apareça volte aos que não tem boa vontade.'
Enquanto enfeitávamos a casa do Vô Juquinha, apareceu D. Ele tem 55 anos e está na Vila por ter sido abandonado pela família. Tem esquizofrenia e um temperamento mais isolado, bravo. Nos pediu :' Aqui, vocês podiam pedir a menina que tá enfeitando minha casa para fazer igual aqui.' ' Luzinhas dentro da casa?' 'É.' Tentamos estimular delicadamente :' Peça você.' 'Não, não vou pedir.'' Então espera que vamos lá e pedimos.'
A dupla que estava enfeitando a casinha onde D. vive com outro interno atendeu prontamente. Do seu modo, D. gostou bastante. Entrou calado e passou um tempo olhando os enfeites.
Fui ver o que estavam aprontando na casa da Vó Alzira. De longe ouvi Lulu Santos e risadas. Três meninos enfeitando a parte de dentro da casa e batendo papo com a avó, que sorria satisfeita com o carinho recebido.
Lindo ver diversos jovens dedicando horas de uma tarde de sábado a alegrar nossos idosos. No dia oito, teremos a festa de Natal e oitenta anos da Vó Alzira!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Enquanto você dormia

   Baile da terceira idade, fomos lá mais uma vez. Gosto do ambiente, de ver meus pacientes se divertindo, de vê-los dançar. E eles demonstram uma tamanha felicidade ao ver suas doutoras no baile. Dançamos, comemos. Voltamos pra casa alegres, rindo. De repente, uma mensagem e... a tragédia anunciada, "Vô Nestor faleceu."
   Talvez nem tanto tragédia. Na verdade um adormecer. Enquanto ele dormia a vida se esvaeceu. Vô Nestor, com seu sorriso único, agora vai sorrir de um lugar melhor. Sua tranquilidade vai resplandecer em um lugar que condiz com sua grande alma escondida dentro do seu sincero "Tudo bem, minha filha".
   "Vô Nestor é guerreiro", ouço. Foi mesmo e deixou seu exemplo de bravura. Em meio ao sofrimento, falta de saúde e solidão, venceu, lutou, mostrou mais força de superação do que qualquer um imaginava.
  "Morreu como um passarinho", diria minha vó. Foi mesmo, sua alma voou enquanto dormia e foi se juntar aos anjos do céu. Amém!

Lidiane esteve aqui!

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Crônica de uma morte anunciada

Hoje me ligaram:'Vô N. Já morreu?'. Ainda não. A evolução da doença dele é tão complexa que não sei de que exatamente ele morrerá. Quanto a mim, angústia. Queria poder fazer algo mais. Hoje chorei ao lado dele. Tentei pesquisar resposta e nem à dor ele reagiu. Posso ter sido delicada, mas não consegui estimular meu vô. Depois de vinte dias internado,  retornou ao asilo inconsciente, ainda com infecção urinária e em oxigenioterapia. Discuti o caso com todos que me apareceram. A grande resposta é : ele não está morrendo de infecção urinária apenas ou de um possível câncer. Começou a morrer anos atrás, quando não controlava adequadamente sua pressão alta e diabetes. Morreu mais quando a família o internou no asilo. Morreu um pouco em dois derrames, morreu um pouco com tristeza e ociosidade que a vida em um asilo oferecem. E que posso eu com suas tantas mortes? Vô N. me mostra que começamos a morrer no dia em que nascemos. E eu morro um pouco com ele, nessa morte que se anuncia, escancarando tantos poderiam-ter-sido-diferentes em sua vida. Obrigada Ênio Pietra,  Ludmila Rezende e Valdirene Siqueira 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Anjos e demônios

Dona M, eu e João. Foto tirada com autorização da paciente para divulgação


Na segunda, fomos ver nossa paciente Dona M, que mora sozinha, já descrita aqui anteriormente, diz estar esperando a morte vir buscá-la, por isso não toma a medicação para ser mais rápido o processo de morte.
Fomos visitá-la e fazer fuxico, descobrimos q ela fazia muito tricô, tem uma máquina de tear em sua casa. Ótimo estímulo! Vamos tricotar. Levamos nosso mais novo amigo, participante ativo do projeto Vila Jovem, um jovem super cheio de energia, J , para nos ajudar.
Estávamos a fuxicar quando de repente entra uma moça na casa e se mostra muito conhecida de dona M. Descobrimos então que nossa idosa depressiva vende produtos naturais e estava cheia de encomendas. É, a cada visita nossa dona M se mostra mais disposta com a vida e nos surpreende também. Bom ver que um pouquinho de vida pode ser plantado de maneiras tão simples e tornar-se uma frondosa árvore de bem regada.
Mas o título refere-se basicamente ao atendimento no presídio. Marcella iniciou o atendimento com um rapaz de 19 anos. Ele já veio totalmente entorpecido, as fácies mostravam alguém que provavelmente fritou o cérebro com muita droga, queixando logo que precisa tomar medicação psiquiátrica para conseguir dormir. Tinha total consciência de usava os remédios com fonte de drogadição quando não tinha maconha ou outras drogas. Contava com uma cara perdida no mundo que o que mais gosta na vida é cheirar todo tipo de droga. Usava várias gírias, para contar que deixou de estudar, mas que era muito inteligente e que quando saísse da prisão iria voltar pra mesma vida que o colocou ali. Foi pego por azar.
Enfim, tristemente recusou as explicações para o mal que estava fazendo a si mesmo. Como não cederíamos a suas exigências pra medicação, disse que pediria a mãe para dar um jeito de conseguir pra ele. Recusou ajuda psiquiátrica. Última cartada, aceitou conversar com a psicóloga. Voltou pra cela revoltado por não termos prescrito a medicação. Sensação de juventude perdida, paciente que não quer ser ajudado. Nós duas pasmas e triste com a degradação humana. Meu Deus, tende piedade de nós!
Tentamos seguir com os atendimentos. Marcella então começa atender R. Conversa vai, conversa vem ele conta que armaram pra ele. Ele não cometeu o crime, apenas estava na hora errada e no lugar errado. Contou que tinha família e estava triste com desgosto que tinha proporcionado a sua mãe. Um rosto tristonho, humilde, queria mudar de vida quando saísse dali. Ao final da consulta vira e perguntar o que é preciso para doar os órgãos, queria fazer os exames para saber se tinha alguma doença infecciosa e se poderia doar ainda vivo. Surpresas, Marcella explicou que não precisa doar em vivo, que existe um processo. O rapaz foi embora pra cela. Fiquei comparando as duas situações. Não sei o quanto de verdade havia no segundo paciente. Mas acredito que bondade há em qualquer um, falta-nos a sensibilidade e muitas vezes a capacidade para achar o caminha até ela e a fazer despertar.
Que Deus nos dê força!
Lidiane esteve aqui!

sábado, 24 de novembro de 2012

Em se plantando...


Momento em que você descobre que o Clonazepam é o Rivotril...

   Grande conquista essa semana. Quando conversamos com o Thiago antes de vir, ele nos advertiu que o serviço na cadeia se resumia a renovar receita de Clonazepam para os reclusos, e que alguns deles cheiravam o Clonazepam, na falta de cigarro comum, maconha, cocaína e crack. Mas que saco -pensamos- serviço braçal?
   Todos os presos vinham com queixas aleatórias: dores, micoses, alergias e depois nos pediam o Clonazepam. Na terceira semana, um rapaz de 19 anos surgiu com uma queixa muito estranha. Desconfiamos que ele tinha inventado a queixa para aproveitar e pedir a medicação. Nesse mesmo dia, um dos agentes penitenciários veio nos contar: os presos escondiam os comprimidos na boca logo apos recebê-los e depois usavam como moeda de barganha. Trocavam por roupas, comida, e vendiam cada comprimido por 15 reais. Nos contaram que os presos chegavam a cheirar 15 comprimidos por vez, e ficavam entorpecidos. Um deles foi levado ao hospital desacordado.
   E agora,  que fazer? O Clonazepam é uma medicação que causa dependência, não podíamos simplesmente suspendê-lo, apenas não passar aos que chegassem ( e sim, chegam novos presos toda semana). Aos que queixavam insônia, oferecemos o Polaramine, que funcionou em dois casos. Ficamos encurraladas com a situação. Também teríamos dificuldades em dormir se estivéssemos presas, em celas apertadas e vendo nossos familiares meia hora por semana.
   Fomos à Farmácia de Minas e descobrimos que não tinha Clonazepam em gotas no estoque. Se tivesse, melhor, eles não podem cheirar nem esconder gotas.  Pedimos que fosse incluído no pedido que chegará em janeiro. Fomos à Prefeitura, não podiam comprar alguns para solucionar o problema, devido aos cortes de verbas de fim de mandato.
   Conversamos com todos os médicos da cidade sobre o problema. Alguns não sabiam. E todos concordaram que não deviamos alimentar esse tráfico. Resolvemos não prescrever nem renovar Clonazepam comprimidos. Os que desejassem, seriam encaminhados à Psiquiatra. E os que faziam uso crônico, deveriam esperar chegar a medicação em gotas ou pedir à familia que comprasse.. O delegado e os agentes penitenciários adoraram. A equipe inteira de saúde aderiu à nossa tentativa de resolução do problema.  Os presos...Melhor nem falar. Nos respeitam muito, nos chamam de senhora, mas não gostaram, obviamente. Num final de semana, cinco foram levados ao hospital e pediram a medicação. Dr. Bruno se negou: 'Clonazepam é com as estagiárias'. E nas três semanas seguintes, diversos presos vieram tentar.
   Tentamos tranquilizar, pedir que esperassem até janeiro. Na terça feira, visita do professor Rubió. Estavamos aguardando pelo Amador, secretário de Saude, que chegaria de viagem e viria conversar conosco. Ao chegar: 'Estava viajando, essas estagiárias de Medicina dão trabalho demais'. Estava chegando de Pequi, onde foi buscar quinze vidros de Clonazepam gotas que estavam sobrando por lá.
   Difícil descrever essa alegria que eu e Lid sentimos! Pelo respeito, consideração e confiança que a cidade teve conosco na nossa tentativa de resolver o problema. Sabemos que é algo pequeno, que não mudamos o status de drogaditos de alguns presos, a maior parte quer Clonazepam como alternativa às drogas que eles não estão tendo acesso. Mas é um alívio para nós saber que não vai haver mais tráfico às nossas custas.Lid está programando uma conversa com as famílias. Quanto a medidas de longo prazo, apoio psicológico... Vamos esperar!