segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Anjos e demônios

Dona M, eu e João. Foto tirada com autorização da paciente para divulgação


Na segunda, fomos ver nossa paciente Dona M, que mora sozinha, já descrita aqui anteriormente, diz estar esperando a morte vir buscá-la, por isso não toma a medicação para ser mais rápido o processo de morte.
Fomos visitá-la e fazer fuxico, descobrimos q ela fazia muito tricô, tem uma máquina de tear em sua casa. Ótimo estímulo! Vamos tricotar. Levamos nosso mais novo amigo, participante ativo do projeto Vila Jovem, um jovem super cheio de energia, J , para nos ajudar.
Estávamos a fuxicar quando de repente entra uma moça na casa e se mostra muito conhecida de dona M. Descobrimos então que nossa idosa depressiva vende produtos naturais e estava cheia de encomendas. É, a cada visita nossa dona M se mostra mais disposta com a vida e nos surpreende também. Bom ver que um pouquinho de vida pode ser plantado de maneiras tão simples e tornar-se uma frondosa árvore de bem regada.
Mas o título refere-se basicamente ao atendimento no presídio. Marcella iniciou o atendimento com um rapaz de 19 anos. Ele já veio totalmente entorpecido, as fácies mostravam alguém que provavelmente fritou o cérebro com muita droga, queixando logo que precisa tomar medicação psiquiátrica para conseguir dormir. Tinha total consciência de usava os remédios com fonte de drogadição quando não tinha maconha ou outras drogas. Contava com uma cara perdida no mundo que o que mais gosta na vida é cheirar todo tipo de droga. Usava várias gírias, para contar que deixou de estudar, mas que era muito inteligente e que quando saísse da prisão iria voltar pra mesma vida que o colocou ali. Foi pego por azar.
Enfim, tristemente recusou as explicações para o mal que estava fazendo a si mesmo. Como não cederíamos a suas exigências pra medicação, disse que pediria a mãe para dar um jeito de conseguir pra ele. Recusou ajuda psiquiátrica. Última cartada, aceitou conversar com a psicóloga. Voltou pra cela revoltado por não termos prescrito a medicação. Sensação de juventude perdida, paciente que não quer ser ajudado. Nós duas pasmas e triste com a degradação humana. Meu Deus, tende piedade de nós!
Tentamos seguir com os atendimentos. Marcella então começa atender R. Conversa vai, conversa vem ele conta que armaram pra ele. Ele não cometeu o crime, apenas estava na hora errada e no lugar errado. Contou que tinha família e estava triste com desgosto que tinha proporcionado a sua mãe. Um rosto tristonho, humilde, queria mudar de vida quando saísse dali. Ao final da consulta vira e perguntar o que é preciso para doar os órgãos, queria fazer os exames para saber se tinha alguma doença infecciosa e se poderia doar ainda vivo. Surpresas, Marcella explicou que não precisa doar em vivo, que existe um processo. O rapaz foi embora pra cela. Fiquei comparando as duas situações. Não sei o quanto de verdade havia no segundo paciente. Mas acredito que bondade há em qualquer um, falta-nos a sensibilidade e muitas vezes a capacidade para achar o caminha até ela e a fazer despertar.
Que Deus nos dê força!
Lidiane esteve aqui!

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