| Dona M, eu e João. Foto tirada com autorização da paciente para divulgação |
Na segunda, fomos ver nossa paciente Dona M, que mora
sozinha, já descrita aqui anteriormente, diz estar esperando a morte vir
buscá-la, por isso não toma a medicação para ser mais rápido o processo de
morte.
Fomos visitá-la e fazer fuxico, descobrimos q ela fazia muito
tricô, tem uma máquina de tear em sua casa. Ótimo estímulo! Vamos tricotar.
Levamos nosso mais novo amigo, participante ativo do projeto Vila Jovem, um
jovem super cheio de energia, J , para nos ajudar.
Estávamos a fuxicar quando de repente entra uma moça na casa
e se mostra muito conhecida de dona M. Descobrimos então que nossa idosa
depressiva vende produtos naturais e estava cheia de encomendas. É, a cada
visita nossa dona M se mostra mais disposta com a vida e nos surpreende também.
Bom ver que um pouquinho de vida pode ser plantado de maneiras tão simples e
tornar-se uma frondosa árvore de bem regada.
Mas o título refere-se basicamente ao atendimento no
presídio. Marcella iniciou o atendimento com um rapaz de 19 anos. Ele já veio
totalmente entorpecido, as fácies mostravam alguém que provavelmente fritou o
cérebro com muita droga, queixando logo que precisa tomar medicação
psiquiátrica para conseguir dormir. Tinha total consciência de usava os
remédios com fonte de drogadição quando não tinha maconha ou outras drogas.
Contava com uma cara perdida no mundo que o que mais gosta na vida é cheirar
todo tipo de droga. Usava várias gírias, para contar que deixou de estudar, mas
que era muito inteligente e que quando saísse da prisão iria voltar pra mesma
vida que o colocou ali. Foi pego por azar.
Enfim, tristemente recusou as explicações para o mal que
estava fazendo a si mesmo. Como não cederíamos a suas exigências pra medicação,
disse que pediria a mãe para dar um jeito de conseguir pra ele. Recusou ajuda
psiquiátrica. Última cartada, aceitou conversar com a psicóloga. Voltou pra
cela revoltado por não termos prescrito a medicação. Sensação de juventude
perdida, paciente que não quer ser ajudado. Nós duas pasmas e triste com a
degradação humana. Meu Deus, tende piedade de nós!
Tentamos seguir com os atendimentos. Marcella então começa
atender R. Conversa vai, conversa vem ele conta que armaram pra ele. Ele não
cometeu o crime, apenas estava na hora errada e no lugar errado. Contou que
tinha família e estava triste com desgosto que tinha proporcionado a sua mãe.
Um rosto tristonho, humilde, queria mudar de vida quando saísse dali. Ao final
da consulta vira e perguntar o que é preciso para doar os órgãos, queria fazer
os exames para saber se tinha alguma doença infecciosa e se poderia doar ainda
vivo. Surpresas, Marcella explicou que não precisa doar em vivo, que existe um
processo. O rapaz foi embora pra cela. Fiquei comparando as duas situações. Não
sei o quanto de verdade havia no segundo paciente. Mas acredito que bondade há
em qualquer um, falta-nos a sensibilidade e muitas vezes a capacidade para
achar o caminha até ela e a fazer despertar.
Que Deus nos dê força!
Lidiane esteve aqui!
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