Hoje deveria ser silêncio, morreu uma amiga, um ser de luz que encheu uma cidade inteira. Conheci Vó Dalzira através de fotos. Tortinha, risonha e abusada. Um sorriso inocente e debochado. Nos recebeu no nosso primeiro dia como quem recebe um parente, bateu palmas e disse : ‘Estava esperando vocês!’. E não mais nos abandonou. Cada visitante da Vila era recebido como uma visita papal.
Passinhos curtos e sem pressa, mas sempre indo. Quero ir embora daqui, quero uma roca de fiar, quero fazer uma folia, cadê o Chiquito, quero ‘Coxina’, tô precisando ir pra lá Sá, combinei de ganhar um porco, quero um vestido de fita, to com gripe nos olhos, esse Tião não tem educação... Vai embora não Sá, janta com a gente, falo isso mas é brinquedo... Vó, quantos anos a senhora tem? Sei não, tem de ver o documento. Oitenta, Vó. Ah, é...
E ria, e ria silenciosamente, nos envolvendo com uma alegria pura e simples. Não houve uma pessoa que a conheceu sem se encantar.
Olhinhos brilhantes, inocentes... Sonhava em ter sua casa, em criar galinhas, em cantar a folia de Reis que aprendeu nos tempos do Chiquito. Cabecinha caprichosa, sem estudo, ia apagando e bordando suas memórias.
No dia dos seus anos, esperei que a folia começasse dentro da capela, cuidando da Vó Dalzira e do folião mais novo. Pensei que jamais viveria um momento tão mágico na vida. Estava errada, era a senhora cuidando de mim, vozinha... Só não fico triste porque Deus devia estar com saudade por ter passado oitenta anos longe da senhora.
