As meninas que estão fazendo rural em São João Evangelista resolveram fazer uma festa para reunir as 80 duplas espalhadas por Minas. Animei desde o inicio. Lidiane relutou um pouco mas acabou animando: temos um amigo em São João que não viamos ha tempos e encontrariamos com ele. Chegamos do serviço sexta na hora do almoço, arrumamos as malas e fomos ver o mapa. Not bad, estrada praticamente reta, cortando Minas Gerais do Noroeste ao Nordeste.40 km de estrada de terra até a balsa, detalhes tão pequenos e barros tão grudentos. Fomos!
Lindo o trajeto... Iamos percebendo as nuances de relevo e vegetação. Tudo aqui perto mais plano e mais verde, mais lagos, no centro de Minas ia ficando mais amorrado e mais seco e a partir de Gouveia, cânions!!! Hectares e hectares de eucalipto nas margens...
Nosso amigo nos levou a conhecer o Instituto Federal de SJE, 1300 alunos- numa cidade de 16 mil, ensino médio e superior, muito bem equipado. E desde o primeiro minuto surgiu o papo no qual mais estamos afiadas: gestão. Ou melhor, o quanto as gestões estão viciadas em todos os niveis. O quanto a corrupção é institucionalizada em todos os setores. Discutimos com ele sobre o Instituto e dividimos algumas angustias daqui de Morada, da Faculdade de Medicina, da propria medicina...
Na casa do rural de São João, encontramos os colegas de Peçanha, Pompéu, Pitangui, Conceição do Mato Dentro, Serro, Ataléia , Leme do Prado e Valadares. Esperava uma festa tradicional de estudantes de medicina: churrasco, bebida e musica de gosto duvidoso. Claro que os itens básicos estavam presentes : pagode, sertanejo, forro e arrocha. O interessante foi o tema de noventa por cento das conversas: como tem funcionado o sistema de saúde nas cidades do interior. Fiquei encantada com o nível de percepção e amadurecimento que alcançamos: as preocupações, as ações... Uma amiga me contou que em sua cidade o que é oferecido para a população foi cortado quando o atual prefeito perdeu a eleição : 'Marcella, fico pensando... Não temos como denunciar isso?'. A questão é: 'Denunciar para quem?'. Estamos inseridos num sistema moroso, cruel e viciado.
SISTEMA! Não falo apenas de pessoas, não temos UM vilão. Em algumas cidades temos profissionais de saúde ruins que colocam vidas em risco. Em outras temos profissionais bons que esbarram em secretários de saúde ruins. Em outras temos profissionais e secretários bons que esbarram em prefeitos ruins. Em outras tudo é ideal, mas dependem de verbas ínfimas e não conseguem oferecer o que a população merece. Nem tento discutir o que é desviado a olho nu nessas cidadezinhas. O que deixa de ser feito por... qual o motivo mesmo? Por que temos profissionais que não recebem? Por que temos profissionais que recebem e não trabalham? Por que temos profissionais que recebem, trabalham mas não atendem demandas da comunidade? Por que temos comunidades que não se organizam?
Fica a certeza: Morada Nova é a melhor cidade, com todos os problemas intrínsecos ao nosso sistema de governo. E sim, precisamos nos envolver com política.
PS: Na volta tivemos uma soma incrível de impossibilidades: Corri numa estrada de terra para não perdemos a balsa, ouvindo Led Zeppelin e cantarolando que somos amigas do Neymar, passamos ao lado de um mico atropelado, paramos para tirar uma foto e a Lid não quis aparecer na foto!
