segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Encontro dos rurais

As meninas que estão fazendo rural em São João Evangelista resolveram fazer uma festa para reunir as 80 duplas espalhadas por Minas. Animei desde o inicio. Lidiane relutou um pouco mas acabou animando: temos um amigo em São João que não viamos ha tempos e encontrariamos com ele. Chegamos do serviço sexta na hora do almoço, arrumamos as malas e fomos ver o mapa. Not bad, estrada praticamente reta, cortando Minas Gerais do Noroeste ao Nordeste.40 km de estrada de terra até a balsa, detalhes tão pequenos e barros tão grudentos. Fomos!
Lindo o trajeto... Iamos percebendo as nuances de relevo e vegetação. Tudo aqui perto mais plano e mais verde, mais lagos, no centro de Minas ia ficando mais amorrado e mais seco e a partir de Gouveia, cânions!!! Hectares e hectares de eucalipto nas margens...
Nosso amigo nos levou a conhecer o Instituto Federal de SJE, 1300 alunos- numa cidade de 16 mil, ensino médio e superior, muito bem equipado. E desde o primeiro minuto surgiu o papo no qual mais estamos afiadas: gestão. Ou melhor, o quanto as gestões estão viciadas em todos os niveis. O quanto a corrupção é institucionalizada em todos os setores. Discutimos com ele sobre o Instituto e dividimos algumas angustias daqui de Morada, da Faculdade de Medicina, da propria medicina...
Na casa do rural de São João, encontramos os colegas de Peçanha, Pompéu, Pitangui, Conceição do Mato Dentro, Serro, Ataléia , Leme do Prado e Valadares. Esperava uma festa tradicional de estudantes de medicina: churrasco, bebida e musica de gosto duvidoso. Claro que os itens básicos estavam presentes : pagode, sertanejo, forro e arrocha. O interessante foi o tema de noventa por cento das conversas: como tem funcionado o sistema de saúde nas cidades do interior. Fiquei encantada com o nível de percepção e amadurecimento que alcançamos: as preocupações, as ações... Uma amiga me contou que em sua cidade o que é oferecido para a população foi cortado quando o atual prefeito perdeu a eleição : 'Marcella, fico pensando... Não temos como denunciar isso?'. A questão é: 'Denunciar para quem?'. Estamos inseridos num sistema moroso, cruel e viciado.
SISTEMA! Não falo apenas de pessoas, não temos UM vilão. Em algumas cidades temos profissionais de saúde ruins que colocam vidas em risco. Em outras temos profissionais bons que esbarram em secretários de saúde ruins. Em outras temos profissionais e secretários bons que esbarram em prefeitos ruins. Em outras tudo é ideal, mas dependem de verbas ínfimas e não conseguem oferecer o que a população merece. Nem tento discutir o que é desviado a olho nu nessas cidadezinhas. O que deixa de ser feito por... qual o motivo mesmo? Por que temos profissionais que não recebem? Por que temos profissionais que recebem e não trabalham? Por que temos profissionais que recebem, trabalham mas não atendem demandas da comunidade? Por que temos comunidades que não se organizam?
Fica a certeza: Morada Nova é a melhor cidade, com todos os problemas intrínsecos ao nosso sistema de governo. E sim, precisamos nos envolver com política.

PS: Na volta tivemos uma soma incrível de impossibilidades: Corri numa estrada de terra para não perdemos a balsa, ouvindo Led Zeppelin e cantarolando que somos amigas do Neymar, passamos ao lado de um mico atropelado, paramos para tirar uma foto e a Lid não quis aparecer na foto!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Do fundo do poço ao topo do mundo!

   Terça feira, primeiro dia pra acordar com o horário de verão e nos atrasamos. Dez pra sete! Comi rápido e corri para o posto do Y pensando, pode ter alguém me esperando pra ser atendido.
   Quem dera. Chego e procuro nossa agenda pra ver se havia pacientes marcados e nada. Nem para amanhã ou depois. Nossa agenda estava guardada na gaveta, enquanto pacientes ligavam ou chegavam pra marcar consulta, mas com a Doutora, não com as estagiárias. Chega um rosto conhecido. Penso retorno de um paciente, fico a posto. Porém, o paciente foi marcado para a doutora. Nada contra a doutora que é excelente, sempre nos ajuda. Nosso problema está no menosprezo, somos apenas estagiárias, médicas só daqui 6 meses.
   Fico chateada. Acordei cedo, estou querendo atender com a maior boa vontade e dedicação. Não fui lá pra ficar à toa. E essa situação não foi a primeira vez. Marcella já chegou a conversar com os funcionários pra tentar mudar.Volto de lá me sentindo péssima. Converso com a Marcella que sugere pra tomarmos medidas mais drásticas: conversar com o chefe.Conversamos. Logo ele ligou para os funcionários e se prontificou a nos ajudar. Nada de agenda na gaveta! Sái de lá com mais esperança da situação mudar.
   Já hoje, no posto W, sempre temos muitos pacientes. Sái de lá meio-dia, uma hora mais tarde, porque tive que resolver muitas situações, tentei dar o melhor de mim. Sái preenchida, sem o vazio do dia anterior. 
Durante a tarde, melhor ainda. Tivemos a primeira reunião com os alunos sobre o projeto. Chegaram aos poucos. Marcella rezando para virem mais. Preces ouvidas, montamos cinco grupos e as atividades começam amanhã por vontade deles. A reunião foi muito envolvente. Uma das dinâmicas foi colocá-los como os idosos, na cadeira de rodas, cegos, surdos, com peso nas pernas para dificultar os passos. E a resposta produtivíssma. Lembraram das próprias famílias, da carência de avós que choram e olham de canto de olho pra ver se alguém esta prestando atenção. Foi muito bom ver em cada rosto a curiosidade, a disponibilidade, a vontade de fazer dar certo. Vieram cheios de idéias.
   Meu Deus como é bom renovar as forças dessa maneira. Vamos ao topo do mundo com essa energia!

Lidiane esteve aqui!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Salvando pardais #2

Outro dia, chegando em casa, vi uma massa rosa na porta de entrada. Como nosso telhado é cheio de ninhos de pardais, logo reconheci: um bebê pardal que havia caído.
‘Lid, tem um passarinho morto na nossa porta!’
(Melhor nem lembrar que eu mesma havia jogado água no telhado dois dias antes, tentando expulsar os pardais emporcalhadores de lá).
Almoçamos e me esqueci de remover o corpo do passarinho. Ao voltar , a surpresa: ‘Lid, o passarinho morto tá vivo!’. A massa rosa agitava levemente o que poderia vir a ser uma asa. Como uma criança, corri e busquei uma tampa onde pudesse colocá-lo. Agonizante, sem penas e com um hematoma na barriga, deixei-o quieto em cima do fogão. Lid descrente e entendida de passarinhos, avisou que este não viveria. Algumas horas depois, sentenciou: ‘Marcella, seu passarinho vivo morreu de novo. ’ Joguei a massa passarinho no lixo, culpada por ter tentado expulsá-los.
Hoje ao chegar, vi uma massa maior, dessa vez cinza, que se debatia no chão da garagem. Já com peninhas humildes, mais um pardal caído do ninho. ‘Lid, vem aqui, temos mais um passarinho!E acho que esse vive!’. Ouvindo meus gritos animados e sem entender do que se tratava, saiu do banheiro enrolada na toalha. Estendi a ela uma embalagem de margarina com o pardal dentro. ‘Esse vive,acho’.
Lid alimentou nosso passarinho (agora chamado Bilbo, vivo desde o inicio) e ele pia a cada pedacinho de pão que ela oferece num palito. Espero que ela tenha herdado da Dona Alice o talento para cuidar desses bichinhos. E juro, prometo e garanto não mais jogar água em pardais!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Impotência

Triste, impotente,fervilhando...
Outro dia pedi ao enfermeiro Alex que me acompanhasse numa visita domiciliar para conferir a medicação de uma senhorinha de 82 anos que sempre ia sozinha à consulta. Na volta pro posto, Alex me falou sobre uma paciente que estava sempre com pressão alta, apesar de toda a medicação prescrita pelo Dr. Gustavo(11 comprimidos por dia). Alex tem um jeito bem mineiro, manso, observador... A cada palavra dele percebo que existem dois mil pensamentos escondidos. Se ele me falou dessa senhora, era porque era necessário irmos vê-la.
Acabou que foi a Lid que foi com ele no dia seguinte. Voltou para casa esquisita, numa indignação que não se traduzia. Entrou para o quarto e saiu com um papel onde havia criado simbolos para toda a medicação que a paciente deveria tomar. Fiquei responsável por realizar a próxima visita.
...
A casa de Dona Maria é uma casa de tijolos num terreno de terra batida. Cerca irregular, plantas mal cuidadas, terra vermelha. Chegamos e estava tudo trancado. Uma gatinha malhada barriguda nos encarou com olhos verdes. 'Voltamos outro dia?' Não, ela vinha subindo a rua... Obesa, com andar vacilante e joelhos tortos, parando para descansar de tempos em tempos.
Cumprimentei-a e me apresentei como colega da Lidiane e pedi para termos uma conversa. Ela abriu a casa e me disse: 'vamos sentar na varanda, aqui dentro é quente'. Pior que quente, a casa inteira cheirava a urina, potencializada pelo calor.Nos sentamos. Varanda cheia de lixo, empoeirada... Restos de telha, espigas de milho comidas, caixas e caixas de papelão, sacolas cheias sabe Deus de quê.
Tentei sondar Dona Maria sobre a medicação, se ela sabia o que tomar, quais horários, pra quê eram os medicamentos. Não sabia. Tomava os remédios aleatoriamente.
Queixou-se de dor nos joelhos. Perguntei se ela gostaria de participar do grupo de exercicio do posto e ela se negou. Ia fugindo das perguntas, negando, desentendendo... Eu insistindo, sondando... E veio então, o momento em que ela foi direta:
'Estou esperando para morrer, minha hora vai chegar logo.' E chorou. 'Não tenho mais o que fazer, passo o dia sozinha vendo a rua, às cinco horas acaba o movimento e não tenho mais o que fazer.' Tampouco quis falar mais disso. Tentei dizer que ela ainda viveria muito ( ela abanava a cabeça), que poderia melhorar do joelho, do coração, da pressão... A cada negativa, sentia-me mais impotente, sem armas, nada me ensinaram sobre o que fazer quando o paciente rejeita o tratamento.
Dona Maria rejeita e implora por ajuda, quer companhia, quer atividades, quer melhorar. Mas não acata nenhuma sugestão. Tentei explicar sobre a folhinha da Lid, dona Maria não prestou atenção. Disse que vai tomar apenas os remédios que tem em casa e não vai buscar mais.
E todo nosso conhecimento sobre doenças e medicações não serve nesse momento. Toda nossa disposição vai de encontro a esse obstáculo. Como convencê-la a insistir, a buscar melhorias?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Romã pra grávida

   Pois então, depois de um fim de semana de plantões voltemos ao trabalho nos psfs. Ontem, chegamos em casa meia noite. Hoje a tarde preces para atendimentos tranquilos, pois ainda não estávamos recuperadas do cansaço. As preces foram atendidas e Marcella resolveu fazer quibe para nossa querida vizinha.
   Saímos pra comprar o que falatava para a receita saborosa e na volta Marcella olha com desejo para as romãs de uma casa simples. "Lidi, sempre que passo por aqui fico com vontade de comer romã. Posso falar que você está grávida e pedir romã?" Técnica que ela costuma usar com frequencia e sempre dá certo. Resolvemos ir lá pedir, a porta estava aberta, fomos pedindo licença e entrando.
   Surgem duas moças simpáticas que de cara já mandam a gente entrar pra pegar as frutas. A casa antiga, que por fora parecia ter dois cômodos, na verdade era enorme, quase um labirinto, com uma área grande de pomar.
   As moças nos ajudaram a pegar pitanga e amora. Marcella subiu no muro pra pegar suas apetitosas romãs. Conversa vai e as duas contas que são de BH e que vieram ficar com a mãe, de 87 anos, Dona A.
   Colhida as frutas e com promessa de voltar pra pegar manga. Fomos para a sala conhecer Dona A. Uma senhorinha na cadeira de rodas, elegante, logo se vê que recebe todo o carinho e atenção da família. Estava silenciosa, mas foi só estimular que foi nos contando diversos casos. Com dificuldade, pela surdez de Dona A, íamos perguntando suas histórias. "Que vestido bonito Dona A." Dona A: "Eu não gosto não. Tá parecendo uma camisola". "E como é que a senhora tá?". Dona A:"Eu tô mais ou menos. Tava falando com a minha vó, desde que eu fiquei doente tô como que uma preguiça!" A vó de Dona A já faleceu há um bom tempo, mas ela vai emendando e remendando sua história de uma maneira singela. E lá vem a filha explicar que a vó já faleceu. Se eu pudesse passava a tarde toda conversando com Dona A.
   Enfim, voltamos pra casa com as romãs e mais pessoas simpáticas no coração.

Lidiane esteve aqui!

O primeiro infarto... a gente nunca esquece!

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Minha proxima tatuagem vai ser um eletro...

Na última quinta-feira,eu e Lid fomos chamadas para dar plantão no hospital esse fim de semana. Estavam aguardando que o hospital enchesse devido a brigas políticas. Ficamos lisonjeadas e incomodadas com o convite : qualquer atividade sem supervisão é crime. O diretor do hospital se comprometeu a estar conosco e a coordenadora da Secretaria da Saúde nos orientou a ligar para o professor. O professor reforçou as orientações  legais e nos liberou pro plantão.
Tive pesadelos duas noites seguidas com esses plantões. Num deles, ao invés de atender pacientes eu era obrigada a brincar com um cachorro do diretor.
Chegamos cedo, evoluímos os pacientes internados e fomos tomar café calmamente, aproveitando para bater papo com a enfermagem.
A enfermeira de plantão veio até nós falando sobre uma paciente de 62 anos, hipertensa, diabética e tabagista que estava com dor no peito. Pedi para fazer um eletrocardiograma dela e já íamos. Lidiane me entregou o eletro séria : SUPER SUPRA ( traduzindo: a paciente estava infartando!). Fui colher a história, examinar e medir a pressão dela: vinte e um por onze! Senhora M. começou a me contar um caso e eu a interrompi: 'senhora, depois quero ouvir muitos casos,mas agora preciso que a senhora descanse e fique tranqüila, a senhora está tendo um infarto. Vou discutir seu caso com Dr. Antônio e volto num minuto.'
Mostrei o eletro ao Dr. Antônio: ' começa a tratar que vou tentar transferi-la'.
Comecei com o que eu lembrava : oxigênio, morfina, isordil,aas. Nesse ínterim, apareceram algumas vitimas de um acidente de carro que demandaram a atenção da Lidiane. Dr. Antônio me pediu para passar o caso para o médico-anjo de Sete Lagoas, Dr. Henrique. Dr. Henrique:' Realmente,ela está infartando. Mas não temos tempo para esperar que ela venha para Sete Lagoas,ela vai ter de receber a medicação ai:estreptoquinase.'. Me passou todas orientações sobre o restante da medicação e caso o eletro não melhorasse, estariam a esperando em Sete Lagoas.
Fiquei muito nervosa,quase cega ao que não dizia respeito à M. Fiz todas as medicações conforme o protocolo. Dr. Antônio checou as prescrições, mas como a Lid, estava ocupado com os acidentados.
Em um momento a Lid veio me dizer para eu me acalmar. A paciente melhorou rápido da dor, e uma hora após a medicação,o eletro já estava melhor. Que alívio!
Ainda brinquei com ela : a senhora foi minha primeira paciente, não poderia estar gripada?
M. evolui bem e somente hoje conseguimos a transferência para observação num hospital maior. O Dr. Henrique não estava no plantão em Sete Lagoas e o outro médico além de grosseiro, não tinha vaga para ela.
Percebo aos poucos o quanto é dicotômico trabalhar com saúde. E se a senhora M evoluisse mal num hospital pequeno como o de Morada? E se não tivéssemos estreptoquinase aqui, daria tempo de chegar em outro lugar para tratar? E se eu fosse cabeleireira, dormiria mais tranqüila antes de ver senhora M andando de bicicleta?
Ainda com tantos seS, só posso agradecer a Deus por ter escolhido estudar medicina. A emoção ao ver um rabisco de eletro e traduzir isso para melhora da paciente é inacreditável, se é que alguém consegue entender essa louca alegria.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Traçadal...

Hoje foi meu primeiro dia de atendimento no Traçadal, a zona rural mais rural daqui.
O motorista da prefeitura nos leva até lá. Uma estrada de terra em que a poeira é um talco de tão fina. Depois atravessamos de balsa e andamos um outro tanto de estrada de terra em meio as vastas plantações de eucalípto.
Enfim chegamos a um pequeno vilarejo. Casas esparças, alguns cercados para as galinhas, um lago e duas capelinhas. Capelinha mesmo! A outra um pouco maior está sendo reformada dedicadamente com a ajuda dos moradores e outros colaboradores. Passamos em frente a uma construção com cara de nova, grande, contrastando com as casas. "É o posto de saúde, foi construído há 4 anos, mas nunca foi usado. Não se sabe porquê." O posto de saúde antigo onde trabalhamos é quase em frente, pequeno, quase menor que a capelinha.
Vamos então ao atendimento. Pacientes simpáticos. A enfermeira ganha ovos e elogios. Um pequeno grupo se reúne e do atendimento vamos para um bate papo caseiro, bom demais. É hora de ir embora. Volto com a promessa de um almoço e café da tarde. Volto mais calada também. Com a sensação de que a vida ali prossegue de outra maneira. Devagar, tranquila. Um desapego que não sei explicar exatamente. Só sei que é bom. Bom apenas sentar para tomar café com o compadre e jogar conversa fora sem preocupar com a hora. Pela simplicidade, Deus deve ter um carinho especial ali.
Depois de voltar num calor daqueles, fomos para o clube a convite de nossa vizinha super bacana!Dia lindo, refrescante, divertido! Terminamos o dia com o primeiro pedido dos famosos bolinhos de Tilápia. Maravilhosos!!! E o preço tão pequeno não condiz com o tanto que é gostoso, incrível! Saboroso nosso fim de noite.
Amanhã teremos uma aventura diferente. Diferente pela situação entre a cruz e a espada. 
Mas enfim, se Deus é por nós, quem será contra nós.

Lidiane esteve aqui!


Impressões na Vila: casamento do Marley e do Otávio

Hoje Marley e Otávio vão se casar. Será o primeiro casamento gay em Minas Gerais. Deixarei minhas considerações para depois. Conhecemos o Marley na última terça, um ex-gordinho simpaticíssimo, com os olhos azuis mais verdes da galáxia. Falante e divertido, nos prendeu num oi que deve ter durado uma hora. Delícia conversar com ele, mal posso esperar para conhecer também seu noivo, Otávio vulgo Bombom.
Como o Bombom é cuidador de idosos, os vovôs da Vila Vicentina estão todos convidados para o casamento. Por diversão, sondei algumas vovós sobre o assunto.

'Eu não vou não. Nunca vi homem casar com homem!' A primeira não deu mais papo.

Resolvi perguntar pra Vó Alzira, nosso xodó. Tento escrever da maneira mais parecida ao jeito dela falar.
' Vó, a senhora vai no casamento?'
'Do Marley e do Otávio? Eles num me chamaram, num vou não!'
'Chamaram sim, Vó,chamaram todo mundo aqui.'
'Cumigo num falaram. Até queria ir.'
'Mas não tem problema casar homem com homem?'
'Tem nada, filha. Marley é macho-fema. Homem com homem num tem problema. Só nunca vi casamento sem noiva, um dos dois vai tê de pô vestido.'

Rindo da Vó até agora. Dezembro é aniversário dela, estamos planejando uma folia.
Ah, e o pessoal do asilo amou o Vila Jovem, Deus abençoe nosso projeto!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Mais um dia de aventura...

Hoje, mais um dia que a minha mãe tem certo temor: as terças de atendimento no presídio. Mas se ela estivesse atendendo conosco veria que não há exatamente o que o temer.
Pela manhã atendemos no posto de saúde. Dia tranquilo, movimento reduzido pelo alvoroço das campanhas políticas.
Fomos então para o presídio depois de bem alimentadas pela D. Iris. Atendemos pacientes novos e depois os retornos da semana passada.
"E então Sr Z, como está a micose?" Pergunto para um rapaz novo, me pensando internamente porque ele não está no trabalho ou estudando. "Do mesmo jeito, não tinha pomada." Pergunto ao policial se alguém foi na farmácia e ele responde que na terça não tinha medicação. Ótimo, na quarta chegaram os medicamentos. A rotatividade de funcionários durante a semana não permite um controle adequado das prescrições.
"E então Sr Y, fez as medidas da glicose?" "Fiz, mas perderam os papéis onde anotaram as medidas."
Já estava ficando com aquela sensação de trabalho perdido, quando muito disposto o policial responsável de hoje se oferece pra ficar responsável pelas medidas da glicemia.
Marcella teve a idéia de anotar todas as condutas pra cada paciente atendido para facilitar o serviço dos policiais.
De pouco em pouco vamos nos ajeitando.

Lidiane estave aqui! 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Projeto Vila Jovem: o embrião

Minha barriga doeu tanto que pensei que ia morrer- ou entrar em trabalho de parto (nããão,relaxem!). Lembrei-me de que fiz um lanche bobo as cinco da tarde- era fome!!
Fui comer um sucrilhos satisfeita: acabei de finalizar um esboço do Projeto Vila Jovem.
Na nossa visita ao asilo na última quarta, Lid ficou muito chateada com a ociosidade dos vovôs. O asilo se chama Vila Vicentina, é uma entidade filiada a Sociedade de São Vicente de Paulo. Lá moram 17 idosos em pequenas casinhas. Os funcionários são verdadeiros anjos, que cuidam de casa passo dos idosos, além da alimentação e vestuário. Apesar de terem atividades diárias, nossos vovôs ficam com bastante tempo ocioso. Cabeça vazia não é oficina do alemão? Do alemão, da depressão e do demo. ' Marcella, precisamos ocupa-los mais!' . Concordei, pensaríamos em algo. Precisávamos de algo sustentável, algo que continuasse quando formos embora.

Pausa nos vovôs. Melhor, parêntesis antes, a Lid quer ser geriatra!
Pronto,pausa.
Tanto eu como Lid já trabalhamos  com crianças e adolescentes. Por incrível que pareça, gostamos muito. Desde antes de vir para cá, o professor nos advertiu da alta taxa de drogadição e gravidez em adolescentes aqui em Morada Nova. É uma constante, os jovens falam que a cidade não oferece atrativos. Já existem algum estratégias por aqui, como o cinema semanal na Casa de Cultura e o NUPE, que é um núcleo de apoio. Ainda assim, a queixa de falta de atrativos persiste.
Não podemos basear a insatisfação dos jovens pelos drogaditos, pais e mães na adolescência. Para cada mãe de treze anos, teremos dez meninas entediadas!

Foram as principais observações da nossa primeira semana. Na quinta a noite, uma luz acendeu: porque não colocar esses jovens ministrando oficinas no asilo? É o óbvio ululante, agir em dois problemas com uma mesma estratégia... A secretária de saúde e a secretária de educação adoraram: pediram que escrevêssemos um projeto e apresentássemos  aos professores no dia 16 de outubro.

Empolgadíssimas, procuramos material no final de semana sobre atividades com idosos, depressão em idosos... Minhas discussões com a Lid são ótimas, como nosso objetivo é o mesmo, estamos sempre construindo, agregando... Depois de conversarmos , ela foi dormir e fiquei passando para o papel nossas idéias: nasceu o Projeto Vila Jovem!!

Objetivo: explorar as habilidades dos jovens em música, dança, teatro, artesanato, jardinagem e mesmo a boa vontade em ouvir e contar histórias para alegrar nossos vovôs! Estou tão animada com a perspectiva! Amanhã procuraremos os coordenadores do asilo.

E quem tiver dicas de oficinas e atividades, mande para nós!
' You may say I'm a dreamer, but I'm not the only one...'