Triste, impotente,fervilhando...
Outro dia pedi ao enfermeiro Alex que me acompanhasse numa visita domiciliar para conferir a medicação de uma senhorinha de 82 anos que sempre ia sozinha à consulta. Na volta pro posto, Alex me falou sobre uma paciente que estava sempre com pressão alta, apesar de toda a medicação prescrita pelo Dr. Gustavo(11 comprimidos por dia). Alex tem um jeito bem mineiro, manso, observador... A cada palavra dele percebo que existem dois mil pensamentos escondidos. Se ele me falou dessa senhora, era porque era necessário irmos vê-la.
Acabou que foi a Lid que foi com ele no dia seguinte. Voltou para casa esquisita, numa indignação que não se traduzia. Entrou para o quarto e saiu com um papel onde havia criado simbolos para toda a medicação que a paciente deveria tomar. Fiquei responsável por realizar a próxima visita.
...
A casa de Dona Maria é uma casa de tijolos num terreno de terra batida. Cerca irregular, plantas mal cuidadas, terra vermelha. Chegamos e estava tudo trancado. Uma gatinha malhada barriguda nos encarou com olhos verdes. 'Voltamos outro dia?' Não, ela vinha subindo a rua... Obesa, com andar vacilante e joelhos tortos, parando para descansar de tempos em tempos.
Cumprimentei-a e me apresentei como colega da Lidiane e pedi para termos uma conversa. Ela abriu a casa e me disse: 'vamos sentar na varanda, aqui dentro é quente'. Pior que quente, a casa inteira cheirava a urina, potencializada pelo calor.Nos sentamos. Varanda cheia de lixo, empoeirada... Restos de telha, espigas de milho comidas, caixas e caixas de papelão, sacolas cheias sabe Deus de quê.
Tentei sondar Dona Maria sobre a medicação, se ela sabia o que tomar, quais horários, pra quê eram os medicamentos. Não sabia. Tomava os remédios aleatoriamente.
Queixou-se de dor nos joelhos. Perguntei se ela gostaria de participar do grupo de exercicio do posto e ela se negou. Ia fugindo das perguntas, negando, desentendendo... Eu insistindo, sondando... E veio então, o momento em que ela foi direta:
'Estou esperando para morrer, minha hora vai chegar logo.' E chorou. 'Não tenho mais o que fazer, passo o dia sozinha vendo a rua, às cinco horas acaba o movimento e não tenho mais o que fazer.' Tampouco quis falar mais disso. Tentei dizer que ela ainda viveria muito ( ela abanava a cabeça), que poderia melhorar do joelho, do coração, da pressão... A cada negativa, sentia-me mais impotente, sem armas, nada me ensinaram sobre o que fazer quando o paciente rejeita o tratamento.
Dona Maria rejeita e implora por ajuda, quer companhia, quer atividades, quer melhorar. Mas não acata nenhuma sugestão. Tentei explicar sobre a folhinha da Lid, dona Maria não prestou atenção. Disse que vai tomar apenas os remédios que tem em casa e não vai buscar mais.
E todo nosso conhecimento sobre doenças e medicações não serve nesse momento. Toda nossa disposição vai de encontro a esse obstáculo. Como convencê-la a insistir, a buscar melhorias?
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