| Minha proxima tatuagem vai ser um eletro... |
Na última quinta-feira,eu e Lid fomos chamadas para dar plantão no hospital esse fim de semana. Estavam aguardando que o hospital enchesse devido a brigas políticas. Ficamos lisonjeadas e incomodadas com o convite : qualquer atividade sem supervisão é crime. O diretor do hospital se comprometeu a estar conosco e a coordenadora da Secretaria da Saúde nos orientou a ligar para o professor. O professor reforçou as orientações legais e nos liberou pro plantão.
Tive pesadelos duas noites seguidas com esses plantões. Num deles, ao invés de atender pacientes eu era obrigada a brincar com um cachorro do diretor.
Chegamos cedo, evoluímos os pacientes internados e fomos tomar café calmamente, aproveitando para bater papo com a enfermagem.
A enfermeira de plantão veio até nós falando sobre uma paciente de 62 anos, hipertensa, diabética e tabagista que estava com dor no peito. Pedi para fazer um eletrocardiograma dela e já íamos. Lidiane me entregou o eletro séria : SUPER SUPRA ( traduzindo: a paciente estava infartando!). Fui colher a história, examinar e medir a pressão dela: vinte e um por onze! Senhora M. começou a me contar um caso e eu a interrompi: 'senhora, depois quero ouvir muitos casos,mas agora preciso que a senhora descanse e fique tranqüila, a senhora está tendo um infarto. Vou discutir seu caso com Dr. Antônio e volto num minuto.'
Mostrei o eletro ao Dr. Antônio: ' começa a tratar que vou tentar transferi-la'.
Comecei com o que eu lembrava : oxigênio, morfina, isordil,aas. Nesse ínterim, apareceram algumas vitimas de um acidente de carro que demandaram a atenção da Lidiane. Dr. Antônio me pediu para passar o caso para o médico-anjo de Sete Lagoas, Dr. Henrique. Dr. Henrique:' Realmente,ela está infartando. Mas não temos tempo para esperar que ela venha para Sete Lagoas,ela vai ter de receber a medicação ai:estreptoquinase.'. Me passou todas orientações sobre o restante da medicação e caso o eletro não melhorasse, estariam a esperando em Sete Lagoas.
Fiquei muito nervosa,quase cega ao que não dizia respeito à M. Fiz todas as medicações conforme o protocolo. Dr. Antônio checou as prescrições, mas como a Lid, estava ocupado com os acidentados.
Em um momento a Lid veio me dizer para eu me acalmar. A paciente melhorou rápido da dor, e uma hora após a medicação,o eletro já estava melhor. Que alívio!
Ainda brinquei com ela : a senhora foi minha primeira paciente, não poderia estar gripada?
M. evolui bem e somente hoje conseguimos a transferência para observação num hospital maior. O Dr. Henrique não estava no plantão em Sete Lagoas e o outro médico além de grosseiro, não tinha vaga para ela.
Percebo aos poucos o quanto é dicotômico trabalhar com saúde. E se a senhora M evoluisse mal num hospital pequeno como o de Morada? E se não tivéssemos estreptoquinase aqui, daria tempo de chegar em outro lugar para tratar? E se eu fosse cabeleireira, dormiria mais tranqüila antes de ver senhora M andando de bicicleta?
Ainda com tantos seS, só posso agradecer a Deus por ter escolhido estudar medicina. A emoção ao ver um rabisco de eletro e traduzir isso para melhora da paciente é inacreditável, se é que alguém consegue entender essa louca alegria.
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