quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As surpresas que Deus prepara

Costumo dizer que sou filha única de Deus. Só quem percebe o amor Dele entende isso, de sentir um amor tão grande que me faz pensar que sou a preferida. Hoje fizemos pequenas cirurgias no bloco cirúrgico do hospital. Durou a tarde inteira, estávamos sozinhas, dificuldade em conseguir todo o material que precisávamos, uma acompanhante se irritou com a demora, uma paciente idosa sangrou muito... Quando acabou, que alívio, quero minha mãe, quero minha casa.
Saí do hospital preocupadíssima com a senhora que sangrou, pensando nas piores complicações possíveis, consegui me ver presa e impedida de formar. Atravessando a praça principal, a encontramos com a irmã e uma amiga, as três mocinhas septuagenárias tomando um sorvete inocente. Pensei: mas que situação providencial, posso ir para casa tranqüila. Mais que isso, a senhora perguntou a que hora estaríamos em casa, queria levar uma comida para nós.
Agradecemos e fomos comprar pão, eram seis da tarde e estávamos sem comer desde o almoço. No momento de pagar, que tristeza: percebi que faltava dinheiro na minha carteira. Não dez reais, mas os cem que estavam lá para eu comprar passagem para BH. Procurei esse dinheiro até no telhado, mesmo estando certa de que estava na carteira.
E agora, quem culpar? Claro que fui displicente,mas não quero esperar que alguém da minha convivência abra minhas coisas. Decepção, a mochila só ficou solta nos centros de saúde. Pensei em brigar, em reclamar, em falar até com a secretária de saúde, era o dinheiro da minha passagem. A solução foi quase chorar, mas a Lid veio, me distraiu, fomos pensando em outras coisas, comemos,e fomos fazer exercício. Uma hora depois, já tinha esquecido a tristeza. Paciência, o mundo ainda é um lugar ruim. Será?
Dona Ívis, nossa mãe daqui de Morada, tinha nos chamado para ir no baile da Terceira Idade, que ocorre toda quinta. Entre curiosas e divertidas com a situação, fomos! Ao entrar, dois galpões, um sanfoneiro, um cantor e um tecladista. Vários casais dançando, entre oito e oitenta anos. Dona Ívis, cadê? Fomos abordadas por um rapaz que parecia bêbado e antes que pudéssemos entender uma frase qualquer, outro rapaz nos chamou. Nos conhecia do vôlei e nos chamou para sentar numa das mesas.
Que sentar que nada! Minutos e já estávamos também na pista! Dançamos dançamos, com os pares mais improváveis possíveis, os passos mais irreprodutíveis possíveis. A música parou, ia começar o bingo. Lid foi comer pastel e eu, a pedido da simpática Dona Ester, comprei uma das cartelas.
Esclareci: não ganho nem par ou ímpar. Acompanhei o pessoal da mesa marcar diversos números... Disse a Lid: Não sei jogar esse jogo,viu? Lid: marca o índio que dá sorte! Não é que deu? Ganhei o bingo da terceira idade!!!Um aparelho de DVD!
Vovôs e Vovós vieram me cumprimentar, um deles veio preocupado conferir se estava tudo completo, se estavam todos os cabos em ordem...A todos prometi voltar na próxima quinta.
Dona Ester nos presenteou com cinco minutos de conversa alegre e com uma foto. E eu termino o dia pensando em como Deus prepara surpresas a todo momento, em como uma pessoa que faz mal a alguém é minoria perto desses nossos vovôs e vovós dançarinos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Folia da Vó

(No asilo,batendo papo com uma senhorinha- inha mesmo, um metro e quarenta)

-Tô querendo é fazer uma 'fulia'.
-Folia, vó? Como assim?
-Ah, filha, 'fulia' é assim: 'nóis' junta tudo e compra comida: arroz, feijão, carne. Dispois nóis senta na mesa, fica nóis tudo ao redor da mesa. Aí nóis come, né? E dispois tem alguém que vem com algum instrumento e canta.Tem até um rapaz aqui perto que traz o instrumento.  Isso que é 'fulia'.

Hm, então tá. Mal posso esperar pela 'fulia'!!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Em época de campanha...

Resolvemos fazer nossa caminhada pela cidade, conhecer as possibilidades de ficar musculosas na academia e outras atividades oferecidas pela vizinhança.
Assim descobrimos que aqui não há carro de som, mas bicicleta de som. 
E lá vai a bicicleta com paródias sertanejas pedindo pelo candidato X. 
Ok, chegamos a metade do caminho, vamos voltar. A bicicleta de som, também volta, o rapaz entra em casa e instantes depois sai. Mudou o disco. Do sertanejo para gospel, fazendo propaganda agora para o candidato Y. 
É, devem ser raras as bicicletas de som. E mais rara a fidelidade partidária.

Lidiane esteve aqui!

Na cadeia

Segundo dia de serviço e primeiro dia acordando as seis da manhã, com um sol digno das três da tarde. Trabalhamos de manhã nos PSFs, tivemos tempo para um cochilo após a deliciosa comida da Dona Ívis e de tarde, atendimento na cadeia.
Cadeia cadeia... Trinta mil vozes em minha cabeça, trinta mil opiniões diferentes sobre como seria atender presidiários. Fomos alertadas que as queixas são principalmente relacionadas ao sono e ansiedade. Me sentia o Drauzio Varella indo pro Carandiru, ia preparada para segurar o choro. Lidiane, Sra. Serenidade Angelical, resolveu que não pensaria muito no assunto,economizar sofrimento.
Os agentes penitenciários nos receberam e improvisaram uma sala de atendimento numa sala que deveria ser uma copa. A antiga sala onde eram feitos os atendimentos tem rachaduras gigantescas e não será usada por motivos de segurança. Não pude deixar de imaginar sobre o restante da casa,que não conhecemos,ainda. Um policial civil sentou conosco e traduzindo seu policiês para português claro, nos pediu que solicitássemos somente os exames estritamente necessários, já que eles tem pouco contingente para levar os presos ao laboratório.
Mas.... O auge se deu logo na primeira consulta! Ficamos as duas na sala com o preso, algemado, e o policial na porta. Não há maca para examinar o paciente, ou seja...Exame do abdome bem prejudicado. Exame em geral bem prejudicado.
Não há como fazer intervenção nenhuma, pedir que o paciente se exercite, que alimente melhor, que durma melhor. Todos os quadros são influenciados pelo fato de estarem presos, pelo fato de não terem muita perspectiva. QO que temos a oferecer é tão pouco que chego a duvidar de nossa utilidade ali.
Lid atendeu o primeiro paciente. Queixa: coceira e lesões na virilha. Logo pensamos em micose. Ela sentada de frente a ele e eu em pé atrás dela. Momento do exame físico... Eu pensando ' A Lid vai passar uma Nistatina e perguntar se melhorou semana que vem.'
Lidiane com a naturalidade de quem diz bom dia ' Vou precisar que você tire a calça para eu examinar.'
Paciente:'Mas aqui a gente não usa cueca.'
( eu sem piscar,mas que cena sensacional!!!!)
Lidiane como se pedisse 'passa a faca?', vira para o agente penitenciário e pergunta se o paciente pode ir vestir cueca. Diante da negativa, pede ao agente um lençol ou algo para cobrir. Surge uma camisa vermelha,do uniforme dos presos.
Triunfal, Dra. Lidiane oferece a camisa ao preso e pede que ele a use para tampar o órgão que não queremos ver. Ele, algemado, abaixa a calça com dificuldade e usa a camisa... Nossa querida põe luva, arreda o órgão prum lado, pro outro, como se manipulasse um outro objeto qualquer, expõe bem as lesões. Micose, mesmo!
Nossa doutora brilhou!
Saí de lá tensa, com mais pensamentos do que ao chegar, pensando em nossa sociedade, em nosso sistema prisional, em nosso sistema de saúde. É justo?

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

   E de repente nossa vizinha chama do lado: "Ei, meninas, querem jogar vólei?"
Lá fomos em busca da quadra, procuramos informações: "Boa noite, onde fica a quadra poliesportiva?" 
Acho que quando a cidade é pequena as distâncias ganham outras dimensões: "Vocês vão andar muito, fica a 5 esquinas daqui virando para a esquerda."
Mas a melhor resposta estava por vir de um rapaz criterioso: "Se não for lá deve ser em outro lugar."
Realmente as distâncias e as circunstâncias mudam.
Partidas jogadas, novas caras, acho que até o final da semana conheceremos todo mundo.

Lidiane esteve aqui!

Chegando...!

Tinindo trincando: A chegada
Após cinco anos estudando e sofrendo,chega o tão esperado Internato em Saúde Coletiva- o Rural! Eu e Lidiane,minha dupla desde o segundo período( só sei que foi assim), escolhemos Morada Nova de Minas como nossa primeira opção. Apesar de não termos sido bem sorteadas, conseguimos vir para Morada. Era a cidade com maior diversidade de atividades: PSFs, asilo, cadeia, cirurgia ambulatorial e área rural. Cidade pequena, a 300km de BH, à beira da represa de Três Marias e plana!
Trouxemos nossas bicicletas e nossos cinco anos de sonhos para cá, na companhia da minha mãe.
Viagem gostosa, tranqüila. Pará de Minas, Pitangui, Martinho Campos, Paineiras, Biquinhas e Morada! Em Paineiras fiquei com medo do sotaque da população de Morada- serei chamada de MaRRRcella?? Logo logo percebi que não.
Chegamos,enfim. Cidade lindinha, pequena, rodeada de água.
A casa do Rural, perfeita! Fácil de achar, arejada, com três quatros (a Lid ficou com a suíte) e uma área com piscina. Minha mãe horrorizou-se silenciosamente com o ambiente propicio a festas.Almoçamos no Vandeco, arrumamos todas as nossas coisas, tiramos as ervas daninhas ao redor da piscina, colocamos um bolo para assar e percebemos que ainda eram três da tarde. Rimos: aqui o tempo rende!
Saímos para 'explorar' a cidade. Eu na Gerusa e Lid no Maicon, nossas bicicletas. Voltamos com os pés vermelhos e conseguimos descobrir alguns pontos importantes: a prefeitura, o PSF Varginha, várias mercearias, a loja de bicicletas, o Banco do Brasil, a Igreja... Boas tardes nos rodearam,além dos olhares curiosos de quem já conhece todos os habitantes daqui.
As sete, nos perdemos ao caminho da missa. Num curto trajeto,passamos por dois comícios. Temos três candidatos numa cidade de oito mil habitantes. Chegamos atrasadas e logo no final, o padre perguntou se havia alguém de fora-para receber uma salva de palmas. Sorte que não éramos as únicas.
Ao fim da missa, avistei uma mulher conhecida. 'Lid,conheço aquela mulher, ela era da faculdade. Deve ser médica aqui!' E era mesmo, Helen, que nos apresentou ao seu namorado Gustavo e a enfermeira Mariana. Depois de muito papo na porta da Igreja, o casal nos levou a conhecer a cidade- dez minutos foram mais que suficientes- e para comer pizza.
Clima delicioso de interior. Hoje, nosso primeiro dia de trabalho, fomos otimamente acolhidas e respeitadas em todos os lugares. A experiência de tomar decisões e 'carimbar' tudo é sensacional!!

Chegando...!

Tinindo trincando: A chegada
Após cinco anos estudando e sofrendo,chega o tão esperado Internato em Saúde Coletiva- o Rural! Eu e Lidiane,minha dupla desde o segundo período( só sei que foi assim), escolhemos Morada Nova de Minas como nossa primeira opção. Apesar de não termos sido bem sorteadas, conseguimos vir para Morada. Era a cidade com maior diversidade de atividades: PSFs, asilo, cadeia, cirurgia ambulatorial e área rural. Cidade pequena, a 300km de BH, à beira da represa de Três Marias e plana!
Trouxemos nossas bicicletas e nossos cinco anos de sonhos para cá, na companhia da minha mãe.
Viagem gostosa, tranqüila. Pará de Minas, Pitangui, Martinho Campos, Paineiras, Biquinhas e Morada! Em Paineiras fiquei com medo do sotaque da população de Morada- serei chamada de MaRRRcella?? Logo logo percebi que não.
Chegamos,enfim. Cidade lindinha, pequena, rodeada de água.
A casa do Rural, perfeita! Fácil de achar, arejada, com três quatros (a Lid ficou com a suíte) e uma área com piscina. Minha mãe horrorizou-se silenciosamente com o ambiente propicio a festas.Almoçamos no Vandeco, arrumamos todas as nossas coisas, tiramos as ervas daninhas ao redor da piscina, colocamos um bolo para assar e percebemos que ainda eram três da tarde. Rimos: aqui o tempo rende!
Saímos para 'explorar' a cidade. Eu na Gerusa e Lid no Maicon, nossas bicicletas. Voltamos com os pés vermelhos e conseguimos descobrir alguns pontos importantes: a prefeitura, o PSF Varginha, várias mercearias, a loja de bicicletas, o Banco do Brasil, a Igreja... Boas tardes nos rodearam,além dos olhares curiosos de quem já conhece todos os habitantes daqui.
As sete, nos perdemos ao caminho da missa. Num curto trajeto,passamos por dois comícios. Temos três candidatos numa cidade de oito mil habitantes. Chegamos atrasadas e logo no final, o padre perguntou se havia alguém de fora-para receber uma salva de palmas. Sorte que não éramos as únicas.
Ao fim da missa, avistei uma mulher conhecida. 'Lid,conheço aquela mulher, ela era da faculdade. Deve ser médica aqui!' E era mesmo, Helen, que nos apresentou ao seu namorado Gustavo e a enfermeira Mariana. Depois de muito papo na porta da Igreja, o casal nos levou a conhecer a cidade- dez minutos foram mais que suficientes- e para comer pizza.
Clima delicioso de interior. Hoje, nosso primeiro dia de trabalho, fomos otimamente acolhidas e respeitadas em todos os lugares. A experiência de tomar decisões e 'carimbar' tudo é sensacional!!