Segundo dia de serviço e primeiro dia acordando as seis da manhã, com um sol digno das três da tarde. Trabalhamos de manhã nos PSFs, tivemos tempo para um cochilo após a deliciosa comida da Dona Ívis e de tarde, atendimento na cadeia.
Cadeia cadeia... Trinta mil vozes em minha cabeça, trinta mil opiniões diferentes sobre como seria atender presidiários. Fomos alertadas que as queixas são principalmente relacionadas ao sono e ansiedade. Me sentia o Drauzio Varella indo pro Carandiru, ia preparada para segurar o choro. Lidiane, Sra. Serenidade Angelical, resolveu que não pensaria muito no assunto,economizar sofrimento.
Os agentes penitenciários nos receberam e improvisaram uma sala de atendimento numa sala que deveria ser uma copa. A antiga sala onde eram feitos os atendimentos tem rachaduras gigantescas e não será usada por motivos de segurança. Não pude deixar de imaginar sobre o restante da casa,que não conhecemos,ainda. Um policial civil sentou conosco e traduzindo seu policiês para português claro, nos pediu que solicitássemos somente os exames estritamente necessários, já que eles tem pouco contingente para levar os presos ao laboratório.
Mas.... O auge se deu logo na primeira consulta! Ficamos as duas na sala com o preso, algemado, e o policial na porta. Não há maca para examinar o paciente, ou seja...Exame do abdome bem prejudicado. Exame em geral bem prejudicado.
Não há como fazer intervenção nenhuma, pedir que o paciente se exercite, que alimente melhor, que durma melhor. Todos os quadros são influenciados pelo fato de estarem presos, pelo fato de não terem muita perspectiva. QO que temos a oferecer é tão pouco que chego a duvidar de nossa utilidade ali.
Lid atendeu o primeiro paciente. Queixa: coceira e lesões na virilha. Logo pensamos em micose. Ela sentada de frente a ele e eu em pé atrás dela. Momento do exame físico... Eu pensando ' A Lid vai passar uma Nistatina e perguntar se melhorou semana que vem.'
Lidiane com a naturalidade de quem diz bom dia ' Vou precisar que você tire a calça para eu examinar.'
Paciente:'Mas aqui a gente não usa cueca.'
( eu sem piscar,mas que cena sensacional!!!!)
Lidiane como se pedisse 'passa a faca?', vira para o agente penitenciário e pergunta se o paciente pode ir vestir cueca. Diante da negativa, pede ao agente um lençol ou algo para cobrir. Surge uma camisa vermelha,do uniforme dos presos.
Triunfal, Dra. Lidiane oferece a camisa ao preso e pede que ele a use para tampar o órgão que não queremos ver. Ele, algemado, abaixa a calça com dificuldade e usa a camisa... Nossa querida põe luva, arreda o órgão prum lado, pro outro, como se manipulasse um outro objeto qualquer, expõe bem as lesões. Micose, mesmo!
Nossa doutora brilhou!
Saí de lá tensa, com mais pensamentos do que ao chegar, pensando em nossa sociedade, em nosso sistema prisional, em nosso sistema de saúde. É justo?
Marcellinha, você conseguiu ficar sem piscar? Que massa, fiquei imaginando a cena aqui... parabéns e sorte...
ResponderExcluirBruna Schneider
Lendo o texto, no princípio, pensei que fosse caso de repressão politica, logo depois percebi e imaginei um relato historico médico, por final, só estava vendo flash back porno na minha cabeça...
ResponderExcluir...muito bom.
Bruno, todas as historias do blog sao reais, estamos relatando nossas experiências no estagio rural no interior de Minas. Sinto desapontar,mas nao há nada de pornográfico aqui... Obrigada pela visita!
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