Baile da terceira idade, fomos lá mais uma vez. Gosto do ambiente, de ver meus pacientes se divertindo, de vê-los dançar. E eles demonstram uma tamanha felicidade ao ver suas doutoras no baile. Dançamos, comemos. Voltamos pra casa alegres, rindo. De repente, uma mensagem e... a tragédia anunciada, "Vô Nestor faleceu."
Talvez nem tanto tragédia. Na verdade um adormecer. Enquanto ele dormia a vida se esvaeceu. Vô Nestor, com seu sorriso único, agora vai sorrir de um lugar melhor. Sua tranquilidade vai resplandecer em um lugar que condiz com sua grande alma escondida dentro do seu sincero "Tudo bem, minha filha".
"Vô Nestor é guerreiro", ouço. Foi mesmo e deixou seu exemplo de bravura. Em meio ao sofrimento, falta de saúde e solidão, venceu, lutou, mostrou mais força de superação do que qualquer um imaginava.
"Morreu como um passarinho", diria minha vó. Foi mesmo, sua alma voou enquanto dormia e foi se juntar aos anjos do céu. Amém!
Lidiane esteve aqui!
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Crônica de uma morte anunciada
Hoje me ligaram:'Vô N. Já morreu?'. Ainda não. A evolução da doença dele é tão complexa que não sei de que exatamente ele morrerá. Quanto a mim, angústia. Queria poder fazer algo mais. Hoje chorei ao lado dele. Tentei pesquisar resposta e nem à dor ele reagiu. Posso ter sido delicada, mas não consegui estimular meu vô. Depois de vinte dias internado, retornou ao asilo inconsciente, ainda com infecção urinária e em oxigenioterapia. Discuti o caso com todos que me apareceram. A grande resposta é : ele não está morrendo de infecção urinária apenas ou de um possível câncer.
Começou a morrer anos atrás, quando não controlava adequadamente sua pressão alta e diabetes. Morreu mais quando a família o internou no asilo. Morreu um pouco em dois derrames, morreu um pouco com tristeza e ociosidade que a vida em um asilo oferecem. E que posso eu com suas tantas mortes? Vô N. me mostra que começamos a morrer no dia em que nascemos. E eu morro um pouco com ele, nessa morte que se anuncia, escancarando tantos poderiam-ter-sido-diferentes em sua vida.
Obrigada Ênio Pietra, Ludmila Rezende e Valdirene Siqueira
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Anjos e demônios
| Dona M, eu e João. Foto tirada com autorização da paciente para divulgação |
Na segunda, fomos ver nossa paciente Dona M, que mora
sozinha, já descrita aqui anteriormente, diz estar esperando a morte vir
buscá-la, por isso não toma a medicação para ser mais rápido o processo de
morte.
Fomos visitá-la e fazer fuxico, descobrimos q ela fazia muito
tricô, tem uma máquina de tear em sua casa. Ótimo estímulo! Vamos tricotar.
Levamos nosso mais novo amigo, participante ativo do projeto Vila Jovem, um
jovem super cheio de energia, J , para nos ajudar.
Estávamos a fuxicar quando de repente entra uma moça na casa
e se mostra muito conhecida de dona M. Descobrimos então que nossa idosa
depressiva vende produtos naturais e estava cheia de encomendas. É, a cada
visita nossa dona M se mostra mais disposta com a vida e nos surpreende também.
Bom ver que um pouquinho de vida pode ser plantado de maneiras tão simples e
tornar-se uma frondosa árvore de bem regada.
Mas o título refere-se basicamente ao atendimento no
presídio. Marcella iniciou o atendimento com um rapaz de 19 anos. Ele já veio
totalmente entorpecido, as fácies mostravam alguém que provavelmente fritou o
cérebro com muita droga, queixando logo que precisa tomar medicação
psiquiátrica para conseguir dormir. Tinha total consciência de usava os
remédios com fonte de drogadição quando não tinha maconha ou outras drogas.
Contava com uma cara perdida no mundo que o que mais gosta na vida é cheirar
todo tipo de droga. Usava várias gírias, para contar que deixou de estudar, mas
que era muito inteligente e que quando saísse da prisão iria voltar pra mesma
vida que o colocou ali. Foi pego por azar.
Enfim, tristemente recusou as explicações para o mal que
estava fazendo a si mesmo. Como não cederíamos a suas exigências pra medicação,
disse que pediria a mãe para dar um jeito de conseguir pra ele. Recusou ajuda
psiquiátrica. Última cartada, aceitou conversar com a psicóloga. Voltou pra
cela revoltado por não termos prescrito a medicação. Sensação de juventude
perdida, paciente que não quer ser ajudado. Nós duas pasmas e triste com a
degradação humana. Meu Deus, tende piedade de nós!
Tentamos seguir com os atendimentos. Marcella então começa
atender R. Conversa vai, conversa vem ele conta que armaram pra ele. Ele não
cometeu o crime, apenas estava na hora errada e no lugar errado. Contou que
tinha família e estava triste com desgosto que tinha proporcionado a sua mãe.
Um rosto tristonho, humilde, queria mudar de vida quando saísse dali. Ao final
da consulta vira e perguntar o que é preciso para doar os órgãos, queria fazer
os exames para saber se tinha alguma doença infecciosa e se poderia doar ainda
vivo. Surpresas, Marcella explicou que não precisa doar em vivo, que existe um
processo. O rapaz foi embora pra cela. Fiquei comparando as duas situações. Não
sei o quanto de verdade havia no segundo paciente. Mas acredito que bondade há
em qualquer um, falta-nos a sensibilidade e muitas vezes a capacidade para
achar o caminha até ela e a fazer despertar.
Que Deus nos dê força!
Lidiane esteve aqui!
sábado, 24 de novembro de 2012
Em se plantando...
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| Momento em que você descobre que o Clonazepam é o Rivotril... |
Grande conquista essa semana. Quando conversamos com o Thiago antes de vir, ele nos advertiu que o serviço na cadeia se resumia a renovar receita de Clonazepam para os reclusos, e que alguns deles cheiravam o Clonazepam, na falta de cigarro comum, maconha, cocaína e crack. Mas que saco -pensamos- serviço braçal?
Todos os presos vinham com queixas aleatórias: dores, micoses, alergias e depois nos pediam o Clonazepam. Na terceira semana, um rapaz de 19 anos surgiu com uma queixa muito estranha. Desconfiamos que ele tinha inventado a queixa para aproveitar e pedir a medicação. Nesse mesmo dia, um dos agentes penitenciários veio nos contar: os presos escondiam os comprimidos na boca logo apos recebê-los e depois usavam como moeda de barganha. Trocavam por roupas, comida, e vendiam cada comprimido por 15 reais. Nos contaram que os presos chegavam a cheirar 15 comprimidos por vez, e ficavam entorpecidos. Um deles foi levado ao hospital desacordado.
E agora, que fazer? O Clonazepam é uma medicação que causa dependência, não podíamos simplesmente suspendê-lo, apenas não passar aos que chegassem ( e sim, chegam novos presos toda semana). Aos que queixavam insônia, oferecemos o Polaramine, que funcionou em dois casos. Ficamos encurraladas com a situação. Também teríamos dificuldades em dormir se estivéssemos presas, em celas apertadas e vendo nossos familiares meia hora por semana.
Fomos à Farmácia de Minas e descobrimos que não tinha Clonazepam em gotas no estoque. Se tivesse, melhor, eles não podem cheirar nem esconder gotas. Pedimos que fosse incluído no pedido que chegará em janeiro. Fomos à Prefeitura, não podiam comprar alguns para solucionar o problema, devido aos cortes de verbas de fim de mandato.
Conversamos com todos os médicos da cidade sobre o problema. Alguns não sabiam. E todos concordaram que não deviamos alimentar esse tráfico. Resolvemos não prescrever nem renovar Clonazepam comprimidos. Os que desejassem, seriam encaminhados à Psiquiatra. E os que faziam uso crônico, deveriam esperar chegar a medicação em gotas ou pedir à familia que comprasse.. O delegado e os agentes penitenciários adoraram. A equipe inteira de saúde aderiu à nossa tentativa de resolução do problema. Os presos...Melhor nem falar. Nos respeitam muito, nos chamam de senhora, mas não gostaram, obviamente. Num final de semana, cinco foram levados ao hospital e pediram a medicação. Dr. Bruno se negou: 'Clonazepam é com as estagiárias'. E nas três semanas seguintes, diversos presos vieram tentar.
Tentamos tranquilizar, pedir que esperassem até janeiro. Na terça feira, visita do professor Rubió. Estavamos aguardando pelo Amador, secretário de Saude, que chegaria de viagem e viria conversar conosco. Ao chegar: 'Estava viajando, essas estagiárias de Medicina dão trabalho demais'. Estava chegando de Pequi, onde foi buscar quinze vidros de Clonazepam gotas que estavam sobrando por lá.
Difícil descrever essa alegria que eu e Lid sentimos! Pelo respeito, consideração e confiança que a cidade teve conosco na nossa tentativa de resolver o problema. Sabemos que é algo pequeno, que não mudamos o status de drogaditos de alguns presos, a maior parte quer Clonazepam como alternativa às drogas que eles não estão tendo acesso. Mas é um alívio para nós saber que não vai haver mais tráfico às nossas custas.Lid está programando uma conversa com as famílias. Quanto a medidas de longo prazo, apoio psicológico... Vamos esperar!
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
E quando é que acaba o final?
Na nossa primeira visita à Vila Vicentina, nos pediram para avaliar o Vô N.. 86 anos, dois derrames, hipertenso, diabético e numa crise de gota. Chegaram ao consultorio com uma criatura tão linda... Emagrecido, sentado na cadeira de rodas, usando uma bermuda, camisa de botão e chapelão de palha. Como está o senhor? 'Bom, minha filha, graças a Deus.'E que sorriso me ofereceu! Sorriso de quem não esta bem, mas que abre mão da minha compaixão, parece resignado ao sofrimento.
Pés e tornozelos com escaras, dedões inchados pela gota, bom não estava. Vô N. nada disse além do que perguntamos. Consciência completa de si e do redor, mas como muitos outros, perdendo aos poucos a vontade de falar. Nos informaram que ele também perdia aos poucos a vontade de comer, se recusava e pronto. Tomamos as condutas necessárias e deixei um pedacinho do meu coração naquela consulta. Não é raro vovôs que simplesmente cansam, desistem. Ter conhecido Vô N. foi o maior impulso para iniciar o projeto Vila Jovem. Gostaria de vê-lo falando, comendo, rindo por alegria...
Mas não... Vô seguiu desnutrindo, desidratando...Simplesmente por não comer nem beber o suficiente. Até que pedimos que fosse levado ao hospital. Foi, recebeu alguns litros de soro e voltou à Vila. Três dias depois, desidratou novamente.
Eu e Lidiane não sabíamos e ainda não sabemos o que fazer. Nesse dia, discutimos com uma professora e ela recomendou que fosse passada uma sonda para alimentação. Voltou ao hospital para isso, mas como resolveu comer lá, a equipe não quis passar a sonda.
Mais uma semana. Chegamos à Vila e o Otávio avisou: 'Vai ver o Vô N; estou querendo levá-lo ao hospital.' Encontro o Vô acamado. Bom dia Vô, tudo bem? ' Tudo bom, graças a Deus, minha filha. ' A frase é a mesma, dessa vez sem sorriso. Vô esta abatido e completamente inchado. Descubro que não urinou no ultimo dia. Faço um encaminhamento bem detalhado ao hospital. No dia seguinte, ele foi transferido para Curvelo, onde ficou mais alguns dias.
Em Curvelo tentaram passar uma sonda uretral e não conseguiram. Fizeram uma cistostomia, que é uma comunicação entre a bexiga e o meio externo. Nos mandaram um relatório orientando a encaminhar para o urologista, pensando em câncer de prostata. Vô N. agora mais emagrecido ainda, desnutrido mesmo, completamente dependente... Eu e Lid nos sentimos despedindo dele a cada dia. Discutimos se haveria necessidade de encaminhar ao Urologista: que diferença faria descobrir um câncer? Médico algum o submeteria a um tratamento nessas condições. Levei o caso ao Super Ênio, que também se sentiu desconfortável, mas nos orientou a encaminhar.
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| 'A parte mais injusta da vida é a forma que ela acaba.' |
Nesse emaranhado, nosso Vô se despede aos poucos desse mundo. Sempre resignado, sempre dando graças a Deus. De cada pessoa na vida, recebemos algo, um aprendizado, um sentimento. A passagem desse Vô nas nossas vidas tem sido muito forte. Torcemos todos os dias para que ele melhore e volte à Vila. E temos dele a proximidade do fim, a certeza vislumbrada da morte. Que nos assusta, nos esmaga e nos diminui ao que realmente somos: nada.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
No flagrante do momento
Estou tentando escrever sempre que aprendo uma nova expressão. Aprendi a usar o verbo catirar, e inclusive tentei catirar amoras em jabuticabas, mas não consegui guardar amoras.
Semana de folga! Desde que nos avisaram dessa semana,pensei que fosse dispensável, melhor três meses direto. Fui para BH pentear ovo, todos tinham seu afazeres e eu entristeci com a chuva e o movimento da cidade. Terça depois do almoço quis voltar para Morada. Ainda na terça recebi mensagem de um dos nossos meninos do Vila Jovem. Consegui voltar na quarta, com a companhia do meu fiel escudeiro Felipe César.
Chegamos a tempo do vôlei. Felipe machucou seus pés de moça e levei-o ao hospital para fazer curativo. Aproveitei para ver como estava um dos nossos vovôs do asilo. Esse vovô receberá qualquer dia um texto dedicado a ele, a cada dia sentimos que se despede um pouco de nós. Cheio de escaras, desnutrido, inchado, acamado. Apesar disso, responde aos nossos 'Tudo bem, vô?' sempre com 'Tudo bem, graças a Deus.'
Fomos à Vila Vicentina, que começa a exibir seus primeiros enfeites de Natal e uma arvore enfeitada pelos jovens do Vila Jovem. Meu coração se enche de alegria por ver brotando os frutos do projeto. Levo Felipe para conhecer o Vô Juquinha, famoso pelos casos sobre seus oitenta e quatro anos de tabagismo (começou aos sete), sanfona e suas silabas prolongadas. Vô Juquinha nos recebe zangado. Diz não querer falar de sanfona e reclama que não cortei suas unhas. Explico que iremos cortar. Felipe muda de assunto, pergunta o que teve no almoço. Vô responde sobre o cardapio do dia e avisa que não gosta de nada com caldo. Vamos perguntando sobre seus alimentos e recebemos a delicia de frase: 'Mandioca eu gosto. Frita não, cozinha. Você cozinha e no flagrante do momento, fica boa.' Mas não conversa muito. Guardamos a frase para a posteridade e deixamos o vô com sua zanga.
Tour pela cidade, pedaladas, conversas profundas com nossos belos cães de rua. Terminamos visitando o casal mais famoso e mais engraçado de Morada: Marley e Otavio, que acabaram de completar um mês de casados.
Falam conosco sobre como se conheceram, sobre as dificuldades e preconceitos que vencem todos os dias, sobre os planos para o futuro (quem sabe filhos???Com os olhos do Marley!!), sobre as regras da purrinha....E no flagrante do momento, combinamos de repetir a visita amanhã.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Grandes problemas, pequenas soluções.
Temos um grande problema no presidio: três dos presidiários são diabéticos em uso de insulina. E eles mesmo aplicam as injeções, duas vezes ao dia. Dois deles estão com as glicemias completamente descontroladas. Um devido aos doces e lanches trazidos pela família.
O outro é um rapaz de 29 anos, o atendi no primeiro dia de internato. Em seu prontuário, há um ano estão descritas crises de hipoglicemia e os outros alunos que o atenderam questionaram se ele não estaria usando insulina além do devido, propositalmente. Cada vez que ele tem hipoglicemia e desmaia, é levado ao hospital, ou seja, sai da cadeia um pouco. Em oito semanas aqui em Morada, atendi-o seis vezes. Expliquei sobre o esquema de insulina, escrevi na caixinha, o fiz repetir para ver se tinha guardado, expliquei sobre as consequências do diabetes a longo prazo, fiz terrorismo sobre as crises de hipoglicemia, diminui a insulina... Resultado desanimador: continuava tendo uma crise de hipoglicemia por semana.
Eu e Lid continuamos desconfiadas de que o paciente estivesse 'brincando com a insulina' e com a vida. Semana passada tentei trocar de tática, tivemos uma conversa sobre suas expectativas com a vida, o que ele fará quando sair da cadeia... Descobri que é um traficante. Pensei: 'ele não quer morrer'. Fui para BH pensando nesse caso e baixei um consenso sobre diabetes que ocupou mais espaço no computador que todas as músicas .
Hoje, nova consulta. R. impaciente, conta sobre mais um desmaio devido à hipoglicemia e diz não entender o motivo da falha do tratamento. Eu também não entendo, eu também desanimo. Confiro com ele sobre a dosagem prescrita e horários, nenhum erro.
Uma última esperança: peço ao agente presidiário que me arrume uma seringa de insulina, sou atendida.
'R., quantas unidades de insulina você usa de manhã?' 'Sete da NPH e quatro da regular.' 'Me mostra como você prepara.' Tiro a agulha e estendo a seringa a ele. 'Assim, olha.' E na seringa marcada de um a 100, R. me mostra o setenta. 'Esse é o sete?' 'É sim, doutora.' Inocente e impaciente, confirma que está usando dez vezes mais insulina que o prescrito inicialmente.
Expliquei ao R. sobre a seringa, fizemos algumas simulações para confirmar se ele havia entendido e o encaminhamos ao Hospital para ficar internado até ajustar a insulinoterapia. Simples assim. Espero que funcione.
domingo, 4 de novembro de 2012
Culpando as mães
Atendendo a milhaaaares de pedidos, vou continuar nosso relato sobre as vivências de duas estudantes nascidas e criadas em Belo Horizonte numa península incrível chamada Morada Nova de Minas.
Como deve ser, adoro crianças. Incluindo as remelentas e emburradas, acho-as todas lindas , fofas, cute-cute nhenhenhem. De quebra, tive apenas professores excepcionais de pediatria ao longo da Faculdade. Cheguei em Morada esperando atender os catarrentinhos saudáveis ou quase e quem sabe pseudohiperativos. Feliz contente, adorei ver na nossa agenda os Rhuans Fellipes, Kathelyns Rairinys e as Jades já beirando a adolescência.
Doce ilusão. Minhas consultas pediátricas no primeiro mês foram pesadelos. As crianças universalmente lindas, mas... Inevitavelmente saíam do consultório emburradas comigo, as mães diziam ter entendido e não,nunca mais voltavam. Quase todas.
Primeiramente devido a onda de viroses respiratórias que não medicamos com antibióticos. Para as mães, criança com febre não receber antibiótico é igual a médico ruim,eca, nunca mais volto nele.
Depois devido ao perfil das mães. Super ultra trans extra protetoras, mas não percebem. Coisa comum é descobrir que a criança de seis anos dorme na cama com a mãe e o pai mudou de quarto. Que o menino de cinco anos anêmico faz nove refeições diárias, entre elas três mamadeiras. Obviamente com leite de vaca, nescau, açúcar e criptonita. Que a menininha de dois anos não fala uma palavra por falta de estímulo. Que o rapazinho de três anos mama na mãe cinco vezes por noite.
Inocentemente, identifiquei esses erros e expus às mães claramente: não, seu filho não precisa fazer uma colonoscopia porque caga fedendo. Não, não precisa de antibiótico. Não, não tem injeção, a fulaninha precisa comer melhor. Não tem nada de errado com seu filho, ele está numa idade de criar hábitos e a senhora é a responsável.
Fiquei frustrada, nessa série de hábitos errados, o desenvolvimento inteiro das fofurinhas fica comprometido. Recorri a uma ajuda preciosa : Dra. Paula, uma das professoras brilhantes que citei. Conselho: ter calma, ir comendo pelas beiradas, pedir um exame de fezes para acalmar a mãe, ir ganhando a confiança para ser ouvida. Essas mães amam, estão tentando fazer o certo.
Na mesma semana em que refletia sobre qual seria a melhor abordagem, numa manhã surgiram sete consultas pediátricas, todas com as queixas clássicas, ou seja, prato cheio para meu exercício. Fui exercitando a minha tolerância com o amor dessas mães, demorei mais tempo escutando, instigando, tentando conduzi-las a conclusões ao invés de orientar. Bingo!!!
Numa delas :' vim pedir um vermugueiro porque essa menina só come bobagem'. Fiz um diário alimentar, perguntando à mãe refeição por refeição da menina de três anos. 'Ai ela chega e come bala, bolo, bombom, pipoca. E não janta.' Registrei tudo sem tecer considerações, examinei. Displicentemente, perguntei: ' Escuta, a fulaninha trabalha?' A mãe assustou-se e respondeu que não. 'Ela cozinha?'. Novamente , não. 'Então quem está dando ou fazendo os lanches?'. A mãe riu, cúmplice, e reclamou do pai, dizendo que após o divórcio ele tenta agradar com quitandas. 'Tudo bem, sinal de que gosta dela. Mas a senhora concorda com isso?'. Não. Fizemos um calculo simples do que esse pai tem gastado e descobrimos que pagaria uma viagem para a praia em um ano. Após a mãe ter vindo com boas idéias para melhorar a alimentação, estimulei e pedi que voltasse em um mês para contar se funcionou. 'Se o pai dela não concordar posso trazê-lo aqui e a senhora conversa com ele?'
Mais que satisfeita, respondi que sim. Dessa vez a culpa não era da mãe.
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