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| Momento em que você descobre que o Clonazepam é o Rivotril... |
Grande conquista essa semana. Quando conversamos com o Thiago antes de vir, ele nos advertiu que o serviço na cadeia se resumia a renovar receita de Clonazepam para os reclusos, e que alguns deles cheiravam o Clonazepam, na falta de cigarro comum, maconha, cocaína e crack. Mas que saco -pensamos- serviço braçal?
Todos os presos vinham com queixas aleatórias: dores, micoses, alergias e depois nos pediam o Clonazepam. Na terceira semana, um rapaz de 19 anos surgiu com uma queixa muito estranha. Desconfiamos que ele tinha inventado a queixa para aproveitar e pedir a medicação. Nesse mesmo dia, um dos agentes penitenciários veio nos contar: os presos escondiam os comprimidos na boca logo apos recebê-los e depois usavam como moeda de barganha. Trocavam por roupas, comida, e vendiam cada comprimido por 15 reais. Nos contaram que os presos chegavam a cheirar 15 comprimidos por vez, e ficavam entorpecidos. Um deles foi levado ao hospital desacordado.
E agora, que fazer? O Clonazepam é uma medicação que causa dependência, não podíamos simplesmente suspendê-lo, apenas não passar aos que chegassem ( e sim, chegam novos presos toda semana). Aos que queixavam insônia, oferecemos o Polaramine, que funcionou em dois casos. Ficamos encurraladas com a situação. Também teríamos dificuldades em dormir se estivéssemos presas, em celas apertadas e vendo nossos familiares meia hora por semana.
Fomos à Farmácia de Minas e descobrimos que não tinha Clonazepam em gotas no estoque. Se tivesse, melhor, eles não podem cheirar nem esconder gotas. Pedimos que fosse incluído no pedido que chegará em janeiro. Fomos à Prefeitura, não podiam comprar alguns para solucionar o problema, devido aos cortes de verbas de fim de mandato.
Conversamos com todos os médicos da cidade sobre o problema. Alguns não sabiam. E todos concordaram que não deviamos alimentar esse tráfico. Resolvemos não prescrever nem renovar Clonazepam comprimidos. Os que desejassem, seriam encaminhados à Psiquiatra. E os que faziam uso crônico, deveriam esperar chegar a medicação em gotas ou pedir à familia que comprasse.. O delegado e os agentes penitenciários adoraram. A equipe inteira de saúde aderiu à nossa tentativa de resolução do problema. Os presos...Melhor nem falar. Nos respeitam muito, nos chamam de senhora, mas não gostaram, obviamente. Num final de semana, cinco foram levados ao hospital e pediram a medicação. Dr. Bruno se negou: 'Clonazepam é com as estagiárias'. E nas três semanas seguintes, diversos presos vieram tentar.
Tentamos tranquilizar, pedir que esperassem até janeiro. Na terça feira, visita do professor Rubió. Estavamos aguardando pelo Amador, secretário de Saude, que chegaria de viagem e viria conversar conosco. Ao chegar: 'Estava viajando, essas estagiárias de Medicina dão trabalho demais'. Estava chegando de Pequi, onde foi buscar quinze vidros de Clonazepam gotas que estavam sobrando por lá.
Difícil descrever essa alegria que eu e Lid sentimos! Pelo respeito, consideração e confiança que a cidade teve conosco na nossa tentativa de resolver o problema. Sabemos que é algo pequeno, que não mudamos o status de drogaditos de alguns presos, a maior parte quer Clonazepam como alternativa às drogas que eles não estão tendo acesso. Mas é um alívio para nós saber que não vai haver mais tráfico às nossas custas.Lid está programando uma conversa com as famílias. Quanto a medidas de longo prazo, apoio psicológico... Vamos esperar!

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