terça-feira, 6 de novembro de 2012

Grandes problemas, pequenas soluções.


Temos um grande problema no presidio: três dos presidiários são diabéticos em uso de insulina. E eles mesmo aplicam as injeções, duas vezes ao dia. Dois deles estão com as glicemias completamente descontroladas. Um devido aos doces e lanches trazidos pela família.
O outro é um rapaz de 29 anos, o atendi no primeiro dia de internato. Em seu prontuário, há um ano estão descritas crises de hipoglicemia e os outros alunos que o atenderam questionaram se ele não estaria usando insulina além do devido, propositalmente. Cada vez que ele tem hipoglicemia e desmaia, é levado ao hospital, ou seja, sai da cadeia um pouco. Em oito semanas aqui em Morada, atendi-o seis vezes. Expliquei sobre o esquema de insulina, escrevi na caixinha, o fiz repetir para ver se tinha guardado, expliquei sobre as consequências do diabetes a longo prazo, fiz terrorismo sobre as crises de hipoglicemia, diminui a insulina... Resultado desanimador: continuava tendo uma crise de hipoglicemia por semana.
Eu e Lid continuamos desconfiadas de que o paciente estivesse 'brincando com a insulina' e com a vida. Semana passada tentei trocar de tática, tivemos uma conversa sobre suas expectativas com a vida, o que ele fará quando sair da cadeia... Descobri que é um traficante. Pensei: 'ele não quer morrer'. Fui para BH pensando nesse caso e baixei um consenso sobre diabetes que ocupou mais espaço no computador que todas as músicas .
Hoje, nova consulta. R. impaciente, conta sobre mais um desmaio devido à hipoglicemia e  diz não entender o motivo da falha do tratamento. Eu também não entendo, eu também desanimo. Confiro com ele sobre a dosagem prescrita e horários, nenhum erro.
Uma última esperança: peço ao agente presidiário que me arrume uma seringa de insulina, sou atendida.
'R., quantas unidades de insulina você usa de manhã?' 'Sete da NPH e quatro da regular.' 'Me mostra como você prepara.' Tiro a agulha e estendo a seringa a ele. 'Assim, olha.' E na seringa marcada de um a 100, R. me mostra o setenta. 'Esse é o sete?' 'É sim, doutora.' Inocente e impaciente, confirma que está usando dez vezes mais insulina que o prescrito inicialmente.
Expliquei ao R. sobre a seringa, fizemos algumas simulações para confirmar se ele havia entendido e o encaminhamos ao Hospital para ficar internado até ajustar a insulinoterapia. Simples assim. Espero que funcione.

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