segunda-feira, 19 de novembro de 2012

E quando é que acaba o final?

Na nossa primeira visita à Vila Vicentina, nos pediram para avaliar o Vô N.. 86 anos, dois derrames, hipertenso, diabético e numa crise de gota. Chegaram ao consultorio com uma criatura tão linda... Emagrecido, sentado na cadeira de rodas, usando uma bermuda, camisa de botão e chapelão de palha. Como está o senhor? 'Bom, minha filha, graças a Deus.'E que sorriso me ofereceu! Sorriso de quem não esta bem, mas que abre mão da minha compaixão, parece resignado ao sofrimento.
Pés e tornozelos com escaras, dedões inchados pela gota, bom não estava. Vô N. nada disse além do que perguntamos. Consciência completa de si e do redor, mas como muitos outros, perdendo aos poucos a vontade de falar. Nos informaram que ele também perdia aos poucos a vontade de comer, se recusava e pronto. Tomamos as condutas necessárias e deixei um pedacinho do meu coração naquela consulta. Não é raro vovôs que simplesmente cansam, desistem. Ter conhecido Vô N. foi o maior impulso para iniciar o projeto Vila Jovem. Gostaria de vê-lo falando, comendo, rindo por alegria...
Mas não... Vô seguiu desnutrindo, desidratando...Simplesmente por não comer nem beber o suficiente. Até que pedimos que fosse levado ao hospital. Foi, recebeu alguns litros de soro e voltou à Vila. Três dias depois, desidratou novamente.
Eu e Lidiane não sabíamos e ainda não sabemos o que fazer. Nesse dia, discutimos com uma professora e ela recomendou que fosse passada uma sonda para alimentação. Voltou ao hospital para isso, mas como resolveu comer lá, a equipe não quis passar a sonda.
Mais uma semana. Chegamos à Vila e o Otávio avisou: 'Vai ver o Vô N; estou querendo levá-lo ao hospital.'  Encontro o Vô acamado. Bom dia Vô, tudo bem? ' Tudo bom, graças a Deus, minha filha. ' A frase é a mesma, dessa vez sem sorriso. Vô esta abatido e completamente inchado. Descubro que não urinou no ultimo dia. Faço um encaminhamento bem detalhado ao hospital. No dia seguinte, ele foi transferido para Curvelo, onde ficou mais alguns dias.
Em Curvelo tentaram passar uma sonda uretral e não conseguiram. Fizeram uma cistostomia, que é uma comunicação entre a bexiga e o meio externo. Nos mandaram um relatório orientando a encaminhar para o urologista, pensando em câncer de prostata. Vô N. agora mais emagrecido ainda, desnutrido mesmo, completamente dependente... Eu e Lid nos sentimos despedindo dele a cada dia. Discutimos se haveria necessidade de encaminhar ao Urologista: que diferença faria descobrir um câncer? Médico algum o submeteria a um tratamento nessas condições. Levei o caso ao Super Ênio, que também se sentiu desconfortável, mas nos orientou a encaminhar.
'A parte mais injusta da vida é a forma que ela acaba.'
Num domingo em que seria atendido, começou com uma dispnéia e voltou ao hospital. Fomos vê-lo na quinta. Mais um pedaço de mim ficou ali. Exames alterados há dois dias ( uma infecção urinária brava) e os médicos não iniciaram antibiótico devido à insuficiência renal. Entramos no quarto, chego pertinho dele : 'Vô, viemos te ver, como o senhor vai?'. 'Bom, filha, graças a Deus.' E para nossa surpresa, a enfermeira: 'Ele fala?'. Vô N. não estava falando, por preguiça ou por fraqueza mesmo. Conversamos com a médica de plantão, que resolve começar a dar o antibiótico. Mais tarde, voltamos para vê-lo e discutimos com outro médico o caso, a equipe resolve passar a sonda para alimentação.
Nesse emaranhado, nosso Vô se despede aos poucos desse mundo. Sempre resignado, sempre dando graças a Deus. De cada pessoa na vida, recebemos algo, um aprendizado, um sentimento. A passagem desse Vô nas nossas vidas tem sido muito forte. Torcemos todos os dias para que ele melhore e volte à Vila. E temos dele a proximidade do fim, a certeza vislumbrada da morte. Que nos assusta, nos esmaga e nos diminui ao que realmente somos: nada.

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