domingo, 4 de novembro de 2012

Culpando as mães


Atendendo a milhaaaares de pedidos, vou continuar nosso relato sobre as vivências de duas estudantes nascidas e criadas em Belo Horizonte numa península incrível chamada Morada Nova de Minas.

Como deve ser, adoro crianças. Incluindo as remelentas e emburradas, acho-as todas lindas , fofas, cute-cute nhenhenhem. De quebra, tive apenas professores excepcionais de pediatria ao longo da Faculdade. Cheguei em Morada esperando atender os catarrentinhos saudáveis ou quase e quem sabe pseudohiperativos. Feliz contente, adorei ver na nossa agenda os Rhuans Fellipes, Kathelyns Rairinys e as Jades já beirando a adolescência.
Doce ilusão. Minhas consultas pediátricas no primeiro mês foram pesadelos. As crianças universalmente lindas, mas... Inevitavelmente saíam do consultório emburradas comigo, as mães diziam ter entendido e não,nunca mais voltavam. Quase todas.
Primeiramente devido a onda de viroses respiratórias que não medicamos com antibióticos. Para as mães, criança com febre não receber antibiótico é igual a médico ruim,eca, nunca mais volto nele.
Depois devido ao perfil das mães. Super ultra trans extra protetoras, mas não percebem. Coisa comum é descobrir que a criança de seis anos dorme na cama com a mãe e o pai mudou de quarto. Que o menino de cinco anos anêmico faz nove refeições diárias, entre elas três mamadeiras. Obviamente com leite de vaca, nescau, açúcar e criptonita. Que a menininha de dois anos não fala uma palavra por falta de estímulo. Que o rapazinho de três anos mama na mãe cinco vezes por noite.
Inocentemente, identifiquei esses erros e expus às mães claramente: não, seu filho não precisa fazer uma colonoscopia porque caga fedendo. Não, não precisa de antibiótico. Não, não tem injeção, a fulaninha precisa comer melhor. Não tem nada de errado com seu filho, ele está numa idade de criar hábitos e a senhora é a responsável.
Fiquei frustrada, nessa série de hábitos errados, o desenvolvimento inteiro das fofurinhas fica comprometido. Recorri a uma ajuda preciosa : Dra. Paula, uma das professoras brilhantes que citei. Conselho: ter calma, ir comendo pelas beiradas, pedir um exame de fezes para acalmar a mãe, ir ganhando a confiança para ser ouvida. Essas mães amam, estão tentando fazer o certo.
Na mesma semana em que refletia sobre qual seria a melhor abordagem, numa manhã surgiram sete consultas pediátricas, todas com as queixas clássicas, ou seja, prato cheio para meu exercício. Fui exercitando a minha tolerância com o amor dessas mães, demorei mais tempo escutando, instigando, tentando conduzi-las a conclusões ao invés de orientar. Bingo!!!
Numa delas :' vim pedir um vermugueiro porque essa menina só come bobagem'. Fiz um diário alimentar, perguntando à mãe refeição por refeição da menina de três anos. 'Ai ela chega e come bala, bolo, bombom, pipoca. E não janta.' Registrei tudo sem tecer considerações, examinei. Displicentemente, perguntei: ' Escuta, a fulaninha trabalha?' A mãe assustou-se e respondeu que não. 'Ela cozinha?'. Novamente , não. 'Então quem está dando ou fazendo os lanches?'. A mãe riu, cúmplice, e reclamou do pai, dizendo que após o divórcio ele tenta agradar com quitandas. 'Tudo bem, sinal de que gosta dela. Mas a senhora concorda com isso?'. Não. Fizemos um calculo simples do que esse pai tem gastado e descobrimos que pagaria uma viagem para a praia em um ano. Após a mãe ter vindo com boas idéias para melhorar a alimentação, estimulei e pedi que voltasse em um mês para contar se funcionou. 'Se o pai dela não concordar posso trazê-lo aqui e a senhora conversa com ele?'
Mais que satisfeita, respondi que sim. Dessa vez a culpa não era da mãe.

Um comentário:

  1. Que ótimo, marcellinha, adorei o texto e as situações, vc escreve muito bem!

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